Carlos Chagas
O saudoso e incomparável Hélio Silva, dos maiores historiadores
brasileiros, titulou um de seus múltiplos livros de “A República não viu
o amanhecer”. Contou em detalhes, fruto de muita pesquisa, que a
República foi proclamada por acaso. As lições daquele episódio não devem
ser esquecidas. Vale lembrá-las com outras palavras e um pouquinho de
adendos que a gente colhe com o passar do tempo, junto a outros
historiadores e, em especial, pela leitura dos jornais da época.
Desde junho que o primeiro-ministro do Império era o Visconde de Ouro
Preto. Vetusto, turrão, exprimia os estertores do chamado “poder civil”
da época, muito mais poder do que civil, porque concentrado nas mãos da
nobreza e dos barões do café, com limitadíssimas relações com o cidadão
comum.
O Brasil havia saído da Guerra do Paraguai com cicatrizes profundas, a
começar pela dívida com a Inglaterra, mas com novos personagens no
palco. O principal era o Exército, composto em maioria por cidadãos da
classe média, com ênfase para os menos favorecidos. Escravos aos montes
também haviam sido libertados para lutar nos pântanos e charcos
paraguaios. Nobres lutaram, como Caxias e Osório, mas a maioria era
composta daquilo que se formava como o brasileiro médio.
Ouro Preto, como a maior parte da nobreza, ressentia-se daqueles
patrícios fardados que começavam a opinar e a participar da vida
política. Haviam sido peça fundamental na abolição da escravatura, em
1888. Assim, com o Imperador já pouco interessado no futuro, o governo
imperial tratou de limitar os militares. Foram proibidos de
manifestações políticas, humilhados e punidos, como Sena Madureira e
tantos outros.
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MUDANÇAS
Havia, nos quartéis e em certos círculos políticos, um anseio por
mudanças. Até o Partido Republicano tinha sido criado no Rio e depois em
São Paulo, mas seus integrantes estavam unidos por um denominador
comum: República, só depois que o “velho” morresse, pois era
queridíssimo pela população. E quem passaria a mandar no Brasil seria um
estrangeiro, o Conde d’Eu, francês, marido da sucessora, a princesa
Isabel.
Cogitava, aquele poder civil elitista, de dissolver o Exército,
restabelecendo o primado da Guarda Nacional, onde os coronéis e altos
oficiais careciam de formação militar. Eram fazendeiros, em maioria. Os
boatos ganhavam a rua do Ouvidor, no Rio, onde localizavam-se as
redações de jornal.
Na tarde de 14 de novembro movimentam-se um regimento e dois
batalhões sediados em São Cristóvão. Com canhões e alguma metralha,
ocupam o Campo de Santana, defronte ao prédio onde se localizava o
ministério da Guerra, na região da hoje Central do Brasil. Declararam-se
rebelados e exigiam a substituição do primeiro-ministro, que lá se
encontrava com seus companheiros.
Comandados por majores, estava criado o impasse: não tinham como
invadir o prédio, por falta de um chefe de prestígio, mas não podiam ser
expulsos, já que as tropas imperiais postadas nos fundos do ministério
não se dispunham a atacá-los. O Secretário-Geral do ministério da Guerra
era o marechal Floriano Peixoto, que quando exortado por Ouro Preto a
investir à baioneta contra os revoltosos, pois no Paraguai haviam
praticado feitos muito mais heróicos, saiu-se com frase que ficou para a
História: “Mas no Paraguai, senhor primeiro-ministro, lutávamos contra
paraguaios…”
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DEODORO
Madrugada do dia 15 e os majores, acampados com a tropa revoltada,
lembram-se de que ali perto, numa casinha modesta, morava o marechal
Deodoro da Fonseca, há meses perseguido pelo governo imperial, sem
comissão e doente. Dias atrás o próprio Deodoro recebera um grupo de
republicanos, com Benjamim Constant, Aristides Lobo e outros, aos quais
repetira que não contassem com ele para derrubar o Imperador, seu amigo.
Acordado, Deodoro ouve que dali a poucas horas Ouro Preto assinaria
decreto dissolvendo o Exército. Não era verdade, mas irrita-se, veste a
farda e dispõe-se a liderar a tropa. Não consegue montar a cavalo, tão
fraco estava. Entra numa carruagem e acaba no pátio fronteiriço ao
ministério da Guerra. Lá, monta um cavalo baio e invade o prédio, com os
soldados ao lado, todos gritando “Viva Deodoro! Viva Deodoro!”
Saudando-os com o agitar o boné na mão direita, grita “Viva o
Imperador! Viva o Imperador!”. Apeia e sobe as escadarias, para
considerar Ouro Preto deposto. Repete diversas vezes : “Nós que nos
sacrificamos nos pântanos do Paraguai rejeitamos a dissolução do
Exército.” Estava com febre de 40 graus. O Visconde, corajoso e cruel,
retruca que “maior sacrifício estava fazendo ele ouvindo as baboseiras
de Vossa Excelência!” Foi o limite para Deodoro dizer que estava todo
mundo preso.
O marechal já ia voltando, o sol ainda não tinha nascido e os
republicanos, a seu lado, insistem para que aproveite a oportunidade e
determine o fim do Império. Ele reluta. Benjamin Constant lembra que se a
República fosse proclamada naquela hora, seria governada por um
ditador. E o ditador seria ele, Deodoro. Conta a lenda que os olhos do
velho militar se arregalaram, a febre passou e ele desceu ao andar
térreo, onde montou outra vez o cavalo baio. A tropa recrudesceu com o
“Viva Deodoro! Viva Deodoro!” e ele agradeceu com os gritos de “Viva a
República! Viva a República!”
Não havia populares nas proximidades, muito menos operários.
Aristides Lobo escreverá depois em suas memórias que “o povo assistiu
bestificado a proclamação da República.”
Preso no Paço da Quinta da Boa Vista, com a família, o Imperador teve
48 horas para deixar o Brasil. Deodoro quis votar uma dotação
orçamentária para que subsistissem no exílio. D. Pedro II recusou,
levando apenas pertences pessoais. A República estava proclamada.
Conta-se o episódio porque, graças a Deus, a História do Brasil é feita por homens, não por anjos.
( Tribuna da Internet )