Ao contrário do que supõem os defensores
do sexo “natural”, incesto, promiscuidade, troca de gêneros e de casais,
entre outras coisas que podem soar estranhas, são comuns no reino
animal
Nurit Bensusan *
Muitos concordariam que o mundo ficaria bem menos interessante e
divertido sem sexo, mas poucos percebem a extensão dessa afirmação… não
se trata apenas do óbvio… sem sexo, não haveria flores, os pássaros não
cantariam, os veados não teriam galhadas, os pavões não exibiriam suas
famosas caudas… Enfim, seria um mundo com bem menos graça e beleza…
Mas será que sexo é a mesma coisa para todas as criaturas? Para os
seres humanos e outras espécies, parece ser a cópula. Para os peixes,
um esguicho conjunto de ova e esperma. Para escorpiões e centopeias,
sexo resume-se a um
pacote
de esperma depositado no chão para que a fêmea sente em cima e os faça
explodir em seu trato reprodutivo. Para as plantas com flores, sexo é
confiança depositada no vento ou em um inseto que traga o pólen para uma
flor fêmea pronta para recebê-lo. A lista é grande e há muitas formas
diferentes de sexo e de “relacionamentos” na natureza, desde espécies
monogâmicas, passando por aquelas onde a promiscuidade é garantia de
sobrevivência dos filhotes, até aquelas onde o macho é jantado ao final
do evento sexual.
Essa situação macho e fêmea, como uma dicotomia básica, opostos que
se completam, é apenas uma das muitas alternativas existentes na
natureza. Há espécies que mudam de sexo por conta do equilíbrio
populacional; há aquelas que atravessam diferentes fases em diferentes
gêneros; há uma profusão delas que mantêm relações com indivíduos do
mesmo sexo, inclusive parte dos primatas e felinos… Tradução: incesto,
promiscuidade, troca de casais e de gênero, homossexualidade, cópulas
que duram dias e meses e muitas outras coisas mais que soam estranhas
para alguns, são absolutamente comuns entre as espécies que habitam esse
planetinha perdido…
Ou seja, o que parece “natural”, “normal”, ou algo assim é apenas o
que estamos culturalmente acostumados. Mas, ainda assim, muitos seres da
espécie humana ainda apresentam uma grande dificuldade em lidar com
modelos de sexo e de “relacionamento” diferentes do que eles consideram
normal. O resultado disso é uma tremenda homofobia e um enorme
preconceito contra pessoas que vivem situações diferentes da básica – e
em geral, limitada e monótona – relação de casal.
Para tais seres, recomendo muito um livro, já indicado outras vezes
aqui nesse blog: “Consultório sexual da dra. Tatiana para toda a
criação”, de Olívia Judson. Trata-se de um guia de biologia
evolucionária do sexo, onde é possível ter uma boa ideia da diversidade
que existe na natureza. O livro é super divertido e a autora é uma
grande especialista no tema, além de excelente escritora.
E… se esses seres, que compartilham com vocês o pertencimento à
humanidade (comigo não, pois sou uma ex-humana), não tiverem nem
tempo,
nem vontade de ler o guia da Olivia Judson, poderiam, pelo menos,
respeitar a diversidade e evitar a violência contra quem faz diferente.
Em tempo, leões exibem comportamentos homossexuais sim… já homofóbicos, não…
* Nurit Bensusan, bióloga e engenheira florestal com doutorado em Educação pela Universidade de Brasília (UnB), mantém o blog Nosso Planeta, do jornal O Globo, criou a Biolúdica, e é autora de mais de uma dezena de livros. Entre eles, Biodiversidade: é para comer, vestir ou passar no cabelo; Meio ambiente: e eu com isso?; e Quanto dura um rinoceronte?.