Carlos Newton
Por decisão do corregedor, ministro Francisco Falcão, o Conselho
Nacional de Justiça abriu processo de investigação para apurar as razões
pelas quais a Fazenda do Estado de São Paulo pagou cerca de quatro
bilhões de reais aos titulares do precatório do Parque Villa Lobos – o
mais elevado do Estado de São Paulo. O processo, instaurado em 18 de
dezembro de 2013, examina também por que foram pagos honorários
advocatícios de cerca de R$400 milhões aos escritórios que
representaram os desapropriados, tudo com juros moratórios indevidos,
vez que as parcelas dessa dívida judicial foram quitadas sem atraso
algum.
Por extrema ironia, esse processo de desapropriação, o maior do
Estado, envolvendo área situada na marginal Pinheiros e onde funcionava
“antigo lixão”, iniciou-se em meados de 1988 e já em 1991 transformou-se
em precatório, com tramitação e celeridade incomuns. O metro quadrado
da área foi equiparado ao de áreas habitadas dos Jardins.
A decisão do CNJ é baseada em petição e documentação encaminhadas
pelo jornalista Afanasio Jazadji, no caso, representado pelo escritório
Luiz Nogueira Advogados Associados, de São Paulo.
Classificado como Pedido de Providências, o processo em questão gerou
ofício do CNJ enviado ao presidente do Tribunal de Justiça do Estado de
São Paulo para que preste as informações necessárias até o próximo dia
17 de fevereiro de 2014.
O DESPACHO
Diz o despacho do ministro corregedor e transformado em ofício:
“Expeça-se ofício ao Exmo. Sr. Desembargador Presidente do
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, solicitando informações em
relação aos fatos narrados no requerimento inicial (EVENTO1-REQINIC1),
assinalando o prazo de 15 (quinze) dias para resposta.
Considerando as irregularidades envolvendo a Fazenda Pública
Estadual, a manifestação do TJSP deverá vir acompanhada de cópias das
peças processuais que embasaram a formação do precatório, em especial
sentença, acórdão, cálculo de liquidação e o valor efetivamente pago com
os respectivos comprovantes e demais documentos que a Presidência
entender devidos para esclarecimento do caso.
Os documentos poderão ser examinados na página eletrônica de consulta processual do CNJ. Cópia do presente servirá como ofício.
A resposta deverá ser enviada eletronicamente pelo Sistema e-CNJ,
direcionada ao Pedido de Providências – Corregedoria, nos termos da
Portaria no. 52/2010 da Presidência do Conselho Nacional de Justiça”
INQUÉRITO 542/2011
Destaques-se que no Ministério Público do Estado de São Paulo tramita
desde meados de 2011 inquérito que também apura irregularidades no
pagamento desse precatório e de outros e que segundo o promotor Marcelo
Duarte Daneluzzi,
“a situação envolve danos materiais ao erário que
devem alcançar a estratosfera”. Nesse caso, apura-se a ocorrência de
improbidade administrativa.
Lamentavelmente, para a grande imprensa, essas graves irregularidades
investigadas pelo CNJ e pelo MPE até agora não mereceram registro
algum. Afinal, o que são os R$ 4 bilhões ou os míseros R$ 400 milhões
pagos a advogados com recursos públicos?