quinta-feira, 1 de abril de 2021

Na esteira da reforma ministerial, Ricardo Salles (Meio Ambiente) é a bola da vez

 

 

Charge do Nani (nanihumor.com)

Ingrid Soares e Augusto Fernandes
Correio Braziliense

As acomodações feitas pelo presidente Jair Bolsonaro em seis ministérios, nesta semana, serviram para aliviar, pelo menos um pouco, a pressão do meio político contra a gestão dele, em especial dos partidos do Centrão, que vinham ameaçando virar as costas contra o mandatário em meio às dificuldades do Executivo em controlar a pandemia da Covid-19.

Num aceno às legendas, o chefe do Planalto trocou o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e entregou ao PL a pasta responsável pela articulação política do Planalto com o Congresso. Apesar das várias mudanças, Bolsonaro não descarta outras modificações.

RISCO – No momento, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é o que mais corre risco de ser substituído. O caso dele assemelha-se ao de Ernesto Araújo, pois é tido no meio político como um expoente da ala ideológica do Planalto que compromete a imagem do Brasil perante a comunidade internacional, assim como o chanceler.

Nas últimas semanas, Araújo foi bastante criticado por parlamentares, que pressionaram Bolsonaro a exonerá-lo por conta da postura ideológica do diplomata no trato da política externa e da incapacidade dele de firmar acordos para a compra de vacinas. Salles, por sua vez, é constantemente acusado por deputados e senadores de promover um desmonte na agenda ambiental brasileira, de não apresentar medidas para evitar queimadas e desmatamento ilegal nos biomas do país e de afastar o Brasil de organismos internacionais voltados ao meio ambiente.

Se antes Bolsonaro se opunha à troca de ministros mais “ideológicos”, para não abrir mão das pessoas que cultuam os seus valores conservadores, agora reconhece que, para manter algum grau de governabilidade, não pode insistir na continuidade de subordinados que comprometam a avaliação da sua gestão. Dessa forma, Salles pode deixar o Executivo, caso o mandatário sinta a necessidade de melhorar a própria imagem.

MUDANÇAS – No Congresso, até parlamentares que compõem a base do Executivo reconhecem que mais mudanças ministeriais devem acontecer. Segundo o deputado Evair Vieira de Melo (PP-ES), vice-líder do governo na Câmara, as modificações acontecerão “sempre que for necessário algum freio de arrumação”.

“O governo está no terceiro ano de mandato, e alguns ajustes são necessários. Isso é normal, não tem nada demais. É como uma partida de basquete. É hora de olhar para o banco, repor as peças e jogar o último quarto”, comparou.

O deputado Jose Mario Schreiner (DEM-GO), também vice-líder do governo na Câmara, enfatiza ser “uma decisão do presidente promover mudanças se houver necessidade”. “Mas tudo o que estamos vendo acontecer é salutar ao governo. E sendo salutar ao governo, também é a toda a sociedade brasileira. Ajustes na equipe são bem-vindos, e nós torcemos para que eles se encaixem no perfil que o governo desenhou e almeja”, acrescentou.

CRÍTICAS DA BANCADA DA BALA  – Deputados da “bancada da bala” e 11 entidades representativas de profissionais da Segurança Pública elaboraram uma nota conjunta para “expressar discordância” à nomeação do delegado da Polícia Federal Anderson Torres como ministro da Justiça.

Na carta endereçada ao presidente Jair Bolsonaro, os signatários afirmam que Torres, quando foi secretário de Segurança Pública do DF e chefe de gabinete do ex-deputado federal do PSL Fernando Francischini, demonstrou “atuação parcial”. “O reiterado precedente de sua atuação junto ao Poder Legislativo Federal bem como a sua gestão junto à Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal mostram, ao entender destes parlamentares e destas entidades nacionais, a sua atuação parcial e consequente desarmonia entre as instituições de segurança pública”, afirma a nota.

Base aliada dá bobeira e comissão da Câmara consegue convocar ministro Braga Netto

 

 

diz que golpe de 1964 deve ser celebrado em 'contexto  histórico' | Jovem Pan

Ministro Braga Netto foi convocado e não poderá faltar

Bruno Góes
O Globo

A Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara aprovou nesta quarta-feira a convocação do novo ministro da Defesa, general Walter Braga Netto. Como o pedido não foi transformado em convite, Braga Netto será obrigado a comparecer à audiência, que ainda não tem data prevista.

Durante a deliberação, parlamentares do grupo usaram requerimento que estava na pauta para que o antecessor de Braga Netto, Fernando Azevedo, pudesse explicar a compra de cerveja e picanha pelas Forças Armadas. Como ele não está mais no cargo, o novo titular foi convocado e terá de explicar muita coisa mais.

TROCA DE COMANDO – Agora, o novo ministro da Defesa também será inquirido sobre a crise provocada pela troca de comando da pasta e nas três forças: Exército, Marinha e Aeronáutica.

Aprovado por unanimidade, o requerimento foi apresentado pelo deputado Elias Vaz (PSB-GO). No momento da análise, nenhum parlamentar alinhado ao governo estava presente para tentar impedir a convocação. Deputados da base também não se pronunciaram. O requerimento, então, foi aprovado de forma simbólica.

— Nós fizemos um acompanhamento de gastos do governo, do portal de preços do Ministério da Economia, e nos causou estranheza, inclusive com licitações homologadas. Nem todos (os itens) foram comprados, mas nos chamou atenção. Para se ter uma ideia: filé mignon, foram mais de um milhão de quilos comprados; salmão, 438 mil quilos; lombo de bacalhau, 148 mil quilos; 700 mil quilos de picanha e 80 mil cervejas — disse Elias Vaz. O requerimento foi o primeiro item da pauta, aprovado com celeridade.

MAIS CONVITES – Também nesta quarta-feira, a comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou requerimento de convite a Braga Netto e ao ministro Carlos Alberto França (Relações Exteriores).

O presidente da comissão, Aécio Neves (PSDB-MG), disse que a comissão vai abordar as “perspectivas” para a área da Defesa.

“É absolutamente necessário para essa comissão que possamos conhecer também as diretrizes e as perspectivas da área de Defesa. Uma área essencial à vida nacional e à qual essa comissão pretende dar atenção muito especial” — afirmou Aécio.

Além disso, avisou que França será questionado sobre o papel do Itamaraty para a compra de insumos e vacinas. “Há uma grande expectativa de qual será a postura do novo ministro em relação a várias questões que serão levantadas pelos membros desta comissão sobre questões relacionadas à pandemia e ao papel do Ministério das Relações Exteriores na ampliação do acesso do Brasil e dos brasileiros a insumos e vacinas”, disse Aécio.

Defesa das florestas do país, para preservação da vida, é responsabilidade de todos, diz Mourão

 

 

Em meio à crise, Mourão publicou um importante artigo

Hamilton Mourão
Estadão

Quando o assunto é preservação ambiental e biodiversidade, estamos à frente. O Brasil destaca-se nesse contexto por ser um dos países que mais preservam suas florestas, com mais de 60% de todo o seu território cobertos por vegetação nativa, e por ser o hábitat da maior e mais rica biodiversidade do mundo, distribuída em seis biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal.

As florestas são essenciais para o equilíbrio da vida na Terra e desempenham importante papel nos campos ambiental, social e econômico. Elas protegem os solos e os rios, atuam no clima, abrigam uma rica biodiversidade, proporcionam alimento, lazer, medicamentos, atividades sociais e educacionais e são fontes de pesquisa e de sustento econômico.

DIA DAS FLORESTAS – Diante da relevância das florestas para a nossa vida e a do planeta, a Organização das Nações Unidas (ONU) tomou a iniciativa de considerar o dia 21 de março o Dia Internacional das Florestas para que o mundo voltasse a sua atenção para esse tesouro de valor inestimável quando mantido em pé.

Há maneiras de explorar economicamente as florestas, gerando renda e empregos para as comunidades locais e desenvolvimento para o País, e ainda assim preservá-las. Esse caminho passa pelo cumprimento do rigoroso Código Florestal brasileiro e pelas práticas de manejo sustentável, que por meio de um plano bem elaborado garante a manutenção da diversidade e da sustentabilidade da floresta, permitindo a permanência e a renovação dos recursos naturais e o seu uso constante, inclusive pelas próximas gerações.

A preservação e a proteção das florestas brasileiras são dois dos nossos maiores desafios e prioridades. Estamos em constante busca pela perenidade dos nossos biomas e seus respectivos ecossistemas, bem como dos recursos naturais, pela adoção de políticas públicas modernas e consistentes, pelo combate diuturno aos ilícitos ambientais e pelo desenvolvimento sustentável com segurança, justiça e oportunidade para todos os brasileiros.

EXPLORAÇÃO SUSTENTÁVEL – Como um país megadiverso, buscamos alinhar preservação ambiental ao uso sustentável dos recursos biológicos, hídricos, energéticos e minerais.

Dentre as diversas ações adotadas pelo governo em prol de nosso extenso território verde, destaco a recriação do Conselho Nacional da Amazônia Legal, que presido; a deflagração da Operação Verde Brasil 2, em maio de 2020, com previsão de encerramento em 30 de abril próximo; o Plano Amazônia 2021/2022; a Moratória do Fogo, decretada em julho de 2020, com proibição das queimadas legais pelo período de 120 dias; o programa Adote um Parque; e o Floresta +, que prevê o pagamento por serviços ambientais e estimula que os proprietários de terras conservem área maior do que a determinada pela lei.

Além disso, houve aperfeiçoamento do monitoramento por satélite; aplicações de multas; apreensões de equipamentos utilizados em crimes ambientais; e o combate sistemático ao desmatamento e às queimadas ilegais, incluindo a campanha Diga Sim à Vida e Não às Queimadas, no ar desde o ano passado. Em comemoração do Dia Internacional das Florestas foi lançada uma cartilha digital voltada para a conscientização dos jovens, que se encontra disponível para download no site da Vice-Presidência da República.

SUSTENTABILIDADE – No século 21, a sustentabilidade é o caminho que nos permite honrar o pacto geracional com nossos filhos, netos e demais brasileiros. É a única forma de continuarmos a usufruir os benefícios advindos das florestas sem exauri-las, para que as gerações futuras também o façam.

Por isso, no nosso testamento precisam constar, na primeira linha, as florestas brasileiras. Assim como recebemos esse valioso legado ambiental de nossos antepassados, precisamos ter o cuidado de repassá-lo para os novos herdeiros do Brasil.

Porém, esse legado e esse compromisso com as gerações futuras não são de responsabilidade somente do governo federal, governos estaduais e demais autoridades públicas. É evidente que os governantes têm papel relevante e imprescindível na preservação do meio ambiente, por meio das políticas e ações públicas. No entanto, precisamos entender que a defesa das nossas florestas, em prol do bem-estar coletivo, é responsabilidade de todos.

UMA FORTE CORRENTE – A preocupação com a sustentabilidade, o uso consciente dos recursos naturais, a denúncia de ilícitos ambientais pelos canais disponíveis, a redução do lixo e de desperdícios, a não aquisição de animais silvestres e de bens ou produtos da biodiversidade brasileira comercializados ilegalmente devem fazer parte do dia a dia de cada brasileiro. Uma corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco.

 

Quando uma floresta é destruída, com ela perdemos séculos de verde, vidas, saúde, bem-estar e economia. Tratar o meio ambiente com respeito e dignidade é dever de todos nós. Com a união de esforços o Brasil permanecerá sendo o país que mais preserva e protege sua vegetação nativa. A perenidade do planeta passa pela perenidade das florestas.

Charge do Duke

 

 

Charge O TEMPO 31-03-2021

Golpe de 64 cassou mandatos, aposentou ministros do STF, suspendeu eleições diretas — era o amanhecer da ditadura

 

 

A história de 64 começa na verdade em 61 quando Jânio Quadros renunciou

Pedro do Coutto
 
As comemorações que o general Braga Netto promoveu nesta quarta-feira, dia 31, foram marcadas por uma história incompleta daquela que ele pretendeu apresentar ao divulgar o texto que achava adequado. Na realidade, a deposição do presidente João Goulart foi sucedida pelo Ato Institucional nº 1, que teve a colaboração do jurista Francisco Campos, também autor, em 1937, do ato de Getúlio Vargas implantando O Estado Novo e estabelecendo uma ditadura total no país que durou até 29 de outubro de 1945 quando foi afastado pelo movimento político-militar que restaurava o regime democrático.  

Em 1964, pelo Ato Institucional nº 1, o general Castelo Branco, então escolhido presidente da República, cassou mandatos parlamentares, aposentou os ministros Victor Nunes Leal, Gonçalves de Oliveira e Evandro Lins e Silva do STF. Os dois primeiros nomeados por JK, Evandro por João Goulart. Alterou a composição da Corte Suprema; ao invés de sete ministros, onze. Nomeou personalidades ligadas à UDN que possuíam cultura jurídica. Foi o caso de Adaucto Lúcio Cardoso, Aliomar Baleeiro, além de outros que asseguraram a maioria do governo nos julgamentos.

MOBILIZAÇÃO – A história de 1964 começa na verdade em 1961. quando Jânio Quadros renunciou. O vice João Goulart encontrou sérias dificuldades para assumir e, não fosse a mobilização do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e do general Machado Lopes, não teria conseguido chegar à Presidência da República. Mas, para isso, teve que aceitar a emenda parlamentarista que estabeleceu um sistema à base de decisões múltiplas no que se refere a decretos e projetos e lei.

As matérias teriam que ser assinadas pelos ministros das pastas a que se referiam, pelo Primeiro Ministro, cargo criado na crise e finalmente pelo próprio presidente da República. Só valiam com as três chancelas.  

O primeiro-ministro foi Tancredo Neves que harmonizava o PSD com o PTB e também era um homem de grande habilidade política. A UDN participou do ministério; Virgílio Távora nos Transportes, Gabriel Passos nas Minas e Energia, Affonso Arinos, embaixador do Brasil na ONU. Walther Moreira Salles na Fazenda, Ulysses Guimarães na Indústria e Comércio e João Pinheiro Neto no Trabalho.

REFORMA MINISTERIAL – E assim formou o governo. Mas teve que fazer a reforma ministerial porque os deputados que formavam a equipe tinham que disputar a reeleição. O mesmo ocorreu com Santiago Dantas, então ministro das Relações Exteriores.

Em relação ao senador Affonso Arinos, a Consultoria da República chegou à conclusão de que ele não poderia acumular o seu mandato com o posto de embaixador da ONU. No episódio, o governo Goulart evaporou. Santiago Dantas perdeu a eleição no Congresso para o cargo de primeiro-ministro.  

QUEDA – Goulart no plebiscito de 6 de janeiro de 1962 livrou-se do parlamentarismo. Sua queda começou aí. No governo foi acossado por Leonel Brizola que desejava ser candidato à sua sucessão, mas não podia porque era seu cunhado. O processo político radicalizou-se e Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, desencadeou uma campanha fortíssima com o apoio da UDN e de correntes militares contra Goulart.

João Goulart procurou radicalizar também para não perder a liderança do PTB para Brizola. Com isso, ele mobilizou sindicatos, assinou decreto encampando as refinarias de Manguinhos e Capuava, iniciou um processo de reforma agrária, mas não atribuiu importância aos acontecimentos no Sindicato dos Metalúrgicos quando os trabalhadores carregaram o comandante Aragão.

O CLIMA ERA TERRÍVEL – O governo militar não identificou o cabo Anselmo como agente duplo e participou no dia 30 de março de uma reunião com sargentos no Automóvel Clube, na Rua do Passeio. Jango foi aconselhado por Tancredo Neves a não comparecer. Não aceitou o conselho. Brizola não esteve presente na reunião com os sargentos. O clima estava terrível. Saiu o decreto da reforma agrária, possibilitando a desapropriação de áreas distantes a dez quilômetros de rios, açudes, ferrovias e hidrovias.

Jango preparou um projeto de reforma urbana que estabelecia que os proprietários de imóveis alugados separassem dois de sua predileção, e os demais seriam vendidos sob a forma de aluguel. Pode-se imaginar a repercussão que isso teve, e que conseguia unir contra Jango tanto a anarquia quanto os setores comunistas. Em 31 de março foi o fim do governo.

OMISSÃO – Mas o general Braga Netto quando diz que o movimento de 31 de março, apoiado por Lacerda, era para garantir a democracia, omitiu as consequências citadas por mim no início deste artigo. Ocultou também o Ato Institucional nº 2 que adiou as eleições presidenciais de 65 para 66, prorrogando o mandato de Castelo por um ano, suspendeu os habeas corpus e mandados de segurança, tornou inapreciáveis judicialmente decisões do governo e transformou a sucessão presidencial de direta para votação pelo Congresso.

A censura à imprensa viria a ser implantada pelo seu sucessor Costa e Silva na dramática reunião ministerial do Palácio das Laranjeiras em dezembro de 68 quando foi editado o Ato Institucional nº 5. Com ele, além da censura, se intensi vieram as torturas e seus personagens que acabaram expostos na história do Brasil.

Assumiu o ministério da Justiça o ministro Gama e Silva, o ultradireitista. Quando Costa e Silva foi atingido por um AVC, o governo foi assumido por uma junta militar formada pelo general Aurélio de Lira Tavares, pelo almirante Augusto Rademaker e pelo brigadeiro Márcio de Sousa Melo. As violências atingiram o auge e se mantiveram ao longo dos cinco anos de mandato do general Emílio Garrastazu Médici.

ELEIÇÕES ADIADAS –  Vale frisar um ponto importante, quando da “eleição” de Castelo Branco, pelo Congresso, Juscelino, então senador por Goiás, votou em seu nome. Castello tinha assumido o compromisso de garantir eleições livres em outubro de 65, conforme previsto na Constituição. Mas depois adiou as eleições para 66 e afastou Carlos Lacerda pelo voto indireto.

Carlos Lacerda não se conformou e rompeu com a revolução e a ditadura militar. Ele, que foi líder do movimento de março, acabou preso e teve os direitos políticos cassados. Havia sido eleito governador da Guanabara em 1960. Em 65 seu candidato Flexa Ribeiro perdeu as eleições diretas para Negrão de Lima na Guanabara. Foram as últimas eleições diretas para governadores antes do seu restabelecimento em 1982.

Depois de Médici, o governo militar elegeu Geisel presidente da República. Seu irmão Orlando Geisel havia sido nomeado ministro do Exército de Médici, e nessa condição assegurou a investidura de Ernesto Geisel na Presidência. Geisel não confirmou Orlando no ministério. Alguns dias após a posse do novo governo, Orlando foi afetado por um AVC. Faleceu pouco depois.

LEIA DA ANISTIA – Geisel escolheu para sucedê-lo o general João Figueiredo, tendo como vice Aureliano Chaves. Figueiredo em 79 assinou a Lei da Anistia. Seu governo partia para abertura, manteve uma relação cordial com Leonel Brizola que estava exilado no Uruguai. Tentava uma abertura política, mas foi surpreendido pela bomba no Riocentro em 30 de abril de 1981, quando morreu o sargento Antônio do Rosário e ficou gravemente ferido o capitão Wilson Machado. Hoje, Machado é coronel da reserva. Antes, em 26 de março, uma bomba destruiu a sede da Tribuna da Imprensa.

A participação dos extremistas militares ficou comprovada. Além da bomba que explodiu no Riocentro, uma segunda bomba caiu no chão ao lado do carro em que os dois se transportavam. O automóvel era dirigido por Wilson Machado. A segunda bomba foi revelada no Jornal de uma da tarde pela TV Globo. Mas foi excluída do Jornal Nacional. O diretor de jornalismo, Armando Nogueira, ficou mal no episódio.

EXPOSIÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA – Vale destacar no ciclo do poder militar um acontecimento bastante sensível. João Goulart reatara relações diplomáticas e comerciais com a então União Soviética. A União Soviética em 62 montou uma exposição de seus produtos no Rio, no Campo de São Cristóvão. Num sábado, por volta das 22h, chega espavorido à exposição Carlos Lacerda.

Eu era repórter no Correio da Manhã e também estava na exposição. Um radical da corrente militar, major Lameirão, revelou a não sei quem que havia colocado uma bomba na exposição. O governador chegou aflito, pois uma bomba na exposição da União Soviética acarretaria uma intervenção na Guanabara. Chegaram os peritos e encontraram um artefato, mas desativado. Lameirão talvez tenha delirado e confundiu seu desejo com a realidade. Entretanto o objeto estava lá.

Telefonei para o Correio da Manhã e passei o fato. O jornal foi o único a publicar no domingo o acontecimento da noite de sábado. Acrescento isso na história da ditadura militar e na própria história do Brasil.  

NA LINHA DE AZEVEDO E PUJOL –  Em declarações publicadas ontem pelo O Globo, Mourão afirma que não haverá ruptura institucional com as mudanças em curso no Ministério da Defesa e no blog da jornalista Andréia Sadi da TV Globo e da GloboNews, Mourão disse que em matéria de ruptura institucional e constitucional a chance é absolutamente zero. As Forças Armadas, disse, vão se pautar sempre pela legalidade.

Acrescenta o jornal que militares da reserva estão se articulando para defesa da democracia e pela não politização das Forças Armadas, classificando-as como forças do estado e não do governo.  

DEBANDADA – Na Folha de São Paulo, reportagem de Bernardo Caram, Thiago Resende e Fábio Pupo, anuncia que se o presidente Bolsonaro não vetar dispositivos introduzidos pelo Congresso no projeto do Orçamento para 2021, orçamento que se eleva a R$ 3,6 bilhões , a equipe do Ministério da Economia ameaça debandada da pasta.

O ministro Paulo Guedes pretende levar o caso ao presidente Jair Bolsonaro. Novo problema para o governo. Fica com Paulo Guedes ou com Arthur Lira e Rodrigo Pacheco? Os projetos de Paulo Guedes, a meu ver, fracassaram seguidamente. O caso dessas emendas parlamentares é mais um da série.

Impeachment de Bolsonaro pode sair via STF, por um motivo simples – ninguém aguenta mais!

 

 

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Moraes pode detonar Jair Bolsonaro com um sorriso nos lábios

Carlos Newton

O primeiro pacto entre os três Poderes foi um sucesso total para os políticos e empresários envolvidos em atos de corrupção. Como num passe de mágica, o Pacote Anticrime do ministro Sérgio Moro foi substituído no Congresso pela Lei do Abuso de Autoridade, para amedrontar juízes, procuradores e delegados.

Com isso, o presidente Bolsonaro deu um grande passo para blindar os filhos e ele próprio, enquanto Lula da Silva, José Dirceu e outros corruptos eram libertados. Ou seja, o pacto pela impunidade funcionou à perfeição, como uma máquina de lavar dinheiro e reputações.

MULHERES DE MINISTROS –Todos sabem a história do primeiro pacto. Começou muito antes da eleição, em maio de 2018, quando um relatório da Receita Federal citou a advogada Guiomar Mendes, mulher do ministro Gilmar, por ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro e tráfico de influência. 

A mesma investigação apanhou na malha fina a advogada Roberta Rangel, mulher de Dias Toffoli, e em julho de 2018 surgia o escândalo de que a ela dava uma mesada de R$ 100 mil ao marido, que não declarava ao IR e usava R$ 50 mil para pagar a pensão da primeira mulher, vejam a que ponto chegamos.

Ou seja, em 2018, Gilmar e Toffoli necessitavam desesperadamente desse pacto com o Executivo para evitar o prosseguimento das investigações da Receita.

ANTES DA ELEIÇÃO – O entendimento foi proposto pelo então presidente do Supremo, Dias Toffoli, antes do segundo turno da eleição de 2018, não importava quem ganhasse, pois o PT precisava mais do pacto do que Bolsonaro, já que Lula e Dirceu estavam presos.

Toffoli voltou ao assunto após a eleição de Jair Bolsonaro e fez nova carga na sessão de abertura dos trabalhos do Congresso, em 1º de fevereiro de 2019. Em 28 de maio de 2019, com a tese já amadurecida, o presidente recebeu para um café-da-manhã no Alvorada o ministro Dias Toffoli e os presidentes de Câmara e Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre.

Nascia assim o pacto da impunidade, que soltou Lula e Dirceu, destruiu o Pacote Anticrime de Moro e terminou com os problemas das famílias Toffoli e Mendes.

BOLSONARO MELOU TUDO – O pacto acabou se dissolvendo por culpa do próprio presidente, que infantilmente deu força a manifestações antidemocráticas contra o Congresso e o Supremo em abril de 2020.

Com a troca de comando na Câmara e no Senado, agora em 2021, Bolsonaro usou a caneta e a chave do cofre para refazer o pacto com o Congresso, mas teve como incluir  o Supremo, presidido por Luiz Fux.

Agora, o impeachment de Bolsonaro pode até sair através do Supremo, num dos quatro inquéritos a que ele está respondendo:  fake news, atos antidemocráticos, interferência na Polícia Federal e atuação da Abin em defesa de Flávio Bolsonaro. 

GABINETE DO ÓDIO – Os dois primeiros inquéritos estão concluídos e incriminam o “gabinete do ódio”, instalado no terceiro andar do Planalto, ao lado da sala de Bolsonaro. Portanto, logo saberemos se o relator Alexandre de Moraes terá coragem de processar o presidente da República, ou vai passar um pano nessa emporcalhação…

A verdade é que ninguém aguenta mais tanta ignorância, tanto despreparo, tanta desfaçatez, tanto despudor, tanta falta de educação. Realmente, chega! Deveriam dar uma chance de o vice Mourão mostrar serviço.  

De ressaca, Rubem Braga se olhou ao espelho e teve inspiração para um poema

 

 

Sou um homem quieto, o que eu gosto é... Rubem BragaPaulo Peres
Poemas & Canções

Considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, o capixaba Rubem Braga (1913–1990), sempre afirmou que a poesia é necessária, tanto que escreveu vários poemas, entre eles o soneto “Ao Espelho”, no qual retrata uma reflexão pessoal no inexorável passar do tempo.

AO ESPELHO
Rubem Braga

Tu, que não foste belo nem perfeito,
Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
E vã melancolia, contrafeito,
Como a um condenado sem remédio.

Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.

Ontem bebeste em demasia, certo,
Mas não foi, convenhamos, a primeira
Nem a milésima vez que hás bebido.

Volta portanto a cara, vê de perto
A cara, tua cara verdadeira,
Oh, Braga envelhecido, envilecido.