O ex-craque da seleção brasileira, agora
deputado, começará na próxima semana a coletar assinaturas para instalar
uma CPI para investigar a CBF e o futebol

Beto Oliveira/Ag. Câmara
Romário sugere a saída de Marin (à esquerda) da presidência da CBF
O
deputado Romário (PSB-RJ) não desiste do ataque. Quem o viu sentado com
o olhar distante em uma das primeiras poltronas do Plenário da Câmara,
na sessão deliberativa da última quarta-feira (28), pôde ter pensado que
o ex-craque da seleção brasileira estava apenas na “banheira”,
esperando a hora do arremate. Mera opção tática: depois da participação
em audiências públicas e reuniões fechadas no transcorrer desta semana, o
“peixe” pôs a bola debaixo do braço e, em entrevista ao
Congresso em Foco,
emendou, de letra: a CPI destinada a investigar suspeitas de corrupção
na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), uma das suas principais
metas como parlamentar, está a caminho.
Tudo sobre a Copa do Mundo de 2014
Em
seu segundo ano como deputado, Romário disse estar finalizando os
procedimentos burocráticos necessários para fundamentar o requerimento
de criação da comissão parlamentar de inquérito. No que depender dele, a
CBF, às vésperas de organizar a Copa das Confederações no ano que vem e
a Copa do Mundo em 2014, administrando a troca de Mano Menezes por Luís
Felipe Scolari no comando da seleção, terá muito mais trabalho e novos
motivos de preocupação. A coleta de assinaturas de adesão à CPI (no
mínimo 171 entre as 513 possíveis), diz Romário, vai começar já no
início da próxima semana entre os colegas de Câmara. Objeto de
investigação, essencial para a viabilidade regimental da comissão, não
será problema: “Os problemas não são poucos”, avalia o deputado.
“Tem aquele contrato fraudulento entre CBF e TAM, tem o
enriquecimento ilícito das pessoas que trabalham na CBF. Tem também esse
último fato, agora, que não tem a ver, diretamente, com a CBF – mas
envolve o Marco Polo Del Nero. E muitos outros [objetos de
fundamentação] que vocês saberão aí pela frente”, insinuou Romário, sem
querer adiantar o material que tem em mãos.
Era uma menção indireta ao ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e
outra direta ao vice-presidente da CBF e presidente da Federação
Paulista de Futebol, Marco Polo Del Nero, um dos alvos da Operação
Durkheim, da Polícia Federal, que investiga um esquema de venda de
informações sigilosas. Mesmo que as autoridades responsáveis pela
investigação tenham dito não se tratar de suspeita de irregularidade
ligada ao futebol, o fato de o dirigente ter tido documentos apreendidos
pela PF, avalia Romário, já merecia um tratamento diferente ao
investigado. “Eu, no lugar do presidente [da CBF, José Maria Marin],
teria conversado com ele e já o teria afastado. Ele teria de sair do
cargo de vice-presidente da CBF e, principalmente, do de representante
do Brasil na Fifa.”
“Apoio aos covardes”
Em quase dois anos de experiência parlamentar, Romário já sabe o que determina o sucesso de uma CPI. Mas na entrevista a este
site,
à saída do Plenário da Câmara, o deputado parecia convicto de que o
momento conturbado na CBF é o mais propício para enfrentar a chamada
“bancada da bola”, grupo de parlamentares com estreitas relações com os
dirigentes do futebol brasileiro. E que, por mais de uma vez, já mostrou
sua força em duas comissões correlatas – a CPI do Futebol, em 2001; e a
CPI da Nike, em 2008.
Mesmo depois da renúncia de Ricardo Teixeira, que está sob
investigação da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Romário
acredita que a tal bancada terá de rever seus conceitos. E, em um
contexto político-eleitoral, sua própria atuação. “A bancada da bola
não pode mais apoiar sacanagem, corrupção, falcatrua. O Brasil está
entrando em outro momento – e, nesse sentido, o que aconteceu no
julgamento do mensalão é um exemplo. Então, essa bancada vai pensar
bastante, a partir de agora, em quem eles vão apoiar. Aliás, teremos
eleições daqui a dois anos”, fustigou o deputado, para quem a CBF é uma
instituição “covarde e corrompida”.
Na entrevista a seguir, Romário desmonta os rumores de bastidor que
davam conta dos conselhos, por parte de aliados, para que ele não
queimasse cartucho em uma CPI sem efetividade. Além disso, a turma do
deixa disso chegou a suscitar a pouca experiência de Romário como
congressista e, em última análise, como membro de CPI com tamanho poder
de fogo. Acostumado com confrontos internacionais, o deputado matou o
falatório no peito. “Espero e tenho muita fé em que, desta vez, a CPI
vai acontecer.”
Confira a íntegra da entrevista:
Congresso em Foco – A CBF continua a fazer o que quer, sem dar satisfação ao governo ou ao povo?
Romário – Infelizmente, tanto no passado, e
agora no presente. E o pior: se continuar assim, será bastante
desastroso, prejudicial para nosso futebol.
O que mostrou a audiência, no Senado, sobre limite para reeleições na presidência de entidades esportivas?
O Brasil já está alerta, já entende que está na hora de
modernizar. E modernizar é limitar o tempo [de gestores à frente de
entidades]. Uma das formas de modernizar qualquer situação hoje, no que
se refere ao esporte – tanto em confederação quanto em federação,
clubes, enfim –, é limitar o tempo de mandato desses dirigentes.
Há clima favorável para a criação da CPI da CBF?
Eu estou apenas finalizando o resto da documentação para juntar
no processo e, a partir de terça-feira [4], vou começar a recolher as
assinaturas…
Há quem diga que não há fundamentação a justificar a instalação do colegiado…
Claro que tem! Uma é aquele contrato fraudulento entre CBF e
TAM. Outra é o enriquecimento ilícito das pessoas que trabalham na CBF.
Tem também esse último fato, agora, que não tem a ver, diretamente, com a
CBF – mas envolve o Marco Polo Del Nero. E muitos outros [objetos de
fundamentação] que vocês saberão aí pela frente…
O senhor acredita que vai reunir o número mínimo de assinaturas exigido para a instalação do colegiado?
Sim. Estou bastante consciente, entusiasmado. Espero que meus
companheiros entendam, de uma vez por todas, que essa “farra do boi” tem
que acabar.
Romário no ataque, bancada da bola na defesa…
Não é bem assim… Eu entendo que, para que as coisas aconteçam, a
gente precisa de aliados, de votos. Temos que reunir, no mínimo, 171
assinaturas. Tempos de recolher o máximo possível, porque pode ser que
aconteça o que aconteceu outra vez, quando o deputado Anthony Garotinho
[PR] colheu duzentas e poucas assinaturas, e muitos retiraram. Por isso,
ele não conseguiu alcançar o número suficiente. Mas eu espero e tenho
muita fé em que, desta vez, vai acontecer.
A chamada “bancada da bola”, que parece em harmonia com a CBF, tem força parlamentar para barrar a CPI?
A bancada da bola não pode mais apoiar sacanagem, não pode mais
apoiar corrupção, não pode mais apoiar falcatrua. O Brasil está
entrando em outro momento – e, nesse sentido, o que aconteceu no
mensalão é um exemplo. Então, essa bancada vai pensar bastante, a partir
de agora, em quem eles vão apoiar. Aliás, teremos eleições daqui a dois
anos…
O deputado Vicente Cândido (PT-SP), embora não esteja sob
investigação e não figure em qualquer denúncia de irregularidade, é
sócio do presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo Del
Nero, alvo recente de ação da Polícia Federal. O que isso pode
representar?
Independentemente de ser sócio do Vicente, quem aparece no
escândalo é apenas o Del Nero – então é apenas dele que a gente pode
falar. Não posso falar nada sobre meu companheiro Vicente Cândido. O que
eu quero dizer é que só o fato de ele aparecer em um escândalo desse…
Eu, no lugar do presidente [da CBF, José Maria Marin], teria conversado
com ele e já o teria afastado. Ele teria de ser afastado do cargo de
vice-presidente da CBF e, principalmente, como representante do Brasil
na Fifa – ele representa, hoje, o Brasil no lugar do Ricardo Teixeira.
Mas como essa instituição [CBF] é bastante corrompida, covarde e
desonesta, não vai acontecer nada.
Como o senhor viu a queda do Mano Menezes e, na sequência, de Andrés Sanchez? Tem a ver com a crise na CBF?
A saída do Andrés Sanchez foi porque – na concepção dele, e eu
respeito bastante – ele foi voto vencido em relação à saída do Mano, que
eu comemoro como uma grande decisão, porque estava na hora de ele sair.
Mas o Andrés Sanchez tem a bandeira dele, vê o Mano como um cara
competente e queria continuar com o Mano. Eu o respeito, [Andrés] é um
dos poucos caras sérios que tinha na CBF. O que eu posso dizer é o
seguinte: como saíram o Mano e o Andrés, tinha que sair agora o Del Nero
e o próprio presidente, para vermos se melhora alguma coisa.