Em qualquer sistema político, eleição é uma etapa essencial do
processo e movida a competitividade. Debate sobre reformas à parte,
portanto, o que explica o desordenado cenário de alianças este ano, que
conseguiu agravar a geléia geral partidária brasileira, é essencialmente
o declínio da candidata oficial nas pesquisas.
Dele decorre, em parte, a prevalência das alianças regionais sobre a
nacional, sinal da perda de capital político do PT, detectada pelas
bases dos partidos que formam a aliança que elegeu a presidente Dilma ,
hoje com menos fôlego para repetir a dose.
O governo não tem o mesmo poder impositivo de antes, o que já estava
sinalizado na perda gradual do controle sobre sua extensa base
congressual. Esta foi confortável enquanto os índices de aprovação do
governo eram altos, mas passou a ser problema desde a instalação do
processo descendente nas pesquisas.
A percepção do político antecede em muito a do cidadão e, mesmo, a
dos observadores profissionais. Mesmo contrariado, o parlamentar aliado
não investe contra o governo quando este se mostra forte junto à opinião
pública. Ao contrário, quando constata o declínio como processo,
materializa a dissidência.
O efeito contrário, nessas circunstâncias, é devastador, pois à
extensão da base parlamentar do governo corresponde alto potencial de
infidelidade, oculto nos tempos de ventos positivos. Sem leito
ideológico, está assentada em solo movediço, sujeito às intempéries e
aos erros de gestão com impacto no humor do contribuinte.
DESCONFIANÇA EM DILMA
No caso do governo Dilma, a desconfiança política começou em 2012,
quando lideranças experientes se deram o prazo de 2013 para avaliar as
condições de seu governo em entregar resultados, expressão utilizada
pela própria presidente em reunião com seus ministros no início daquele
ano.
Foi também o momento em que o então governador de Pernambuco, Eduardo
Campos,começou a acenar com a possibilidade de sua candidatura pelo
PSB, hoje consolidada. O governo registrava ainda altos índices de
aprovação, mas a dificuldade em obter investimentos, a sinalização de
mudança no modelo econômico e o projeto hegemônico do PT, entre outros
indicadores, apontavam para um cenário futuro de risco.
Possivelmente embalados pelas pesquisas positivas, o PT manteve-se
indiferente aos sinais negativos já perceptíveis e abraçou-se à ilusão
de que fala o ministro Gilberto Carvalho, “de que o povo pensa que está
tudo bem”. Apostou que conseguiria administrar os maus resultados sem
que eles afetassem o cotidiano do cidadão, sustentado apenas num
programa assistencialista.
Os resultados do governo alimentam as bases parlamentares de seus
aliados e determinam a continuidade e a intensidade de seu apoio – ou a
retirada deste. As bases dos parlamentares, portanto, lhe são mais caras
do que o governo, porque delas depende o que lhe é mais essencial: a
preservação do mandato.
Como assinala o cientista político Fernando Lattman-Weltman, da
Fundação Getúlio Vargas (O Globo, 25/06), o eleitor é indiferente à
incoerência ideológica das alianças, importando-lhe os benefícios
produzidos pelos governos, especialmente nos serviços públicos. É o que
ele chama, respaldado pelos fatos, de “pé no chão”.
BASE ALIADA DESUNIDA
As deserções na campanha de Dilma, formais ou informais, crescem na
mesma proporção de sua queda nas pesquisas, indicando que o favoritismo
de que já desfrutou não existe mais , o que remete novamente à crítica
do ministro Gilberto Carvalho, que flagra o PT em um recorrente e
ultrapassado discurso ideológico, com o qual tenta alinhar de um lado os
progressistas e, de outro, os conservadores – tendo-se os primeiros
como aqueles que apoiam incondicionalmente o partido e os últimos como
profissionais do pessimismo , de espírito impatriótico. Ou de má-fé,
como acaba de acusar o ex-presidente Lula.
Não é uma estratégia que comova mais o eleitor e sua aplicação serve
apenas para evidenciar que o líder máximo do partido percebe que o
desgaste alcançou a militância, cujo ânimo, historicamente vital para as
conquistas eleitorais, precisa ser resgatado.
O apoio fragmentado nos Estados já autoriza a previsão de que Dilma
não obterá o mesmo desempenho de 2010 em regiões estrategicamente
importantes para a sua meta de reeleição. No chamado Triângulo das
Bermudas, que reúne os três maiores colégios eleitorais – São Paulo,
Minas e Rio -, estima-se que perderá para a oposição.
Nas demais regiões, poderá vencer, mas sem o mesmo volume de votos da
última eleição, casos do Norte e Nordeste. Ainda que tais previsões
possam se mostrar bem menos contundentes, é certo que já não se pode
mais falar em favoritismo, o que está explícito no reconhecimento, pelos
líderes do PT, de que a eleição será a mais dura de quantas o partido
enfrentou.