Foto: Edu Moraes
Eu estava no ‘Repórter Record’. Quando me chamaram para voltar ao ‘Cidade Alerta’, eu vi que o programa teria 3 horas e 20 minutos de duração com questões policiais e falei: “quer saber? Vou fazer no programa o que eu faço na minha vida. Na minha vida, eu passo 70% do tempo brincando. Nos outros 30% eu trabalho.
Mas as pessoas têm uma imagem diferente de você.
É verdade. Na vida, nunca me chamaram para banho de mar, é sempre para banho de sangue. Olhei meu período todo de Globo e era só investigação e pauleira. Depois, no ‘Repórter Cidadão’, idem. ‘Cidade Alerta’, idem. ‘Cidade Alerta’, idem. Aí, pensei: “peraí, já está na está na hora de eu fazer uma coisa da minha cabeça, diferente do que faço a vida inteira. Vou brincar”. Entrei no estúdio, nos primeiros dias fui sentindo as 3 horas e 30 minutos direto no ar. Aí, fiz uma brincadeira com o Percival, que é todo sério, todo circunspecto, e ele me deu uma resposta boa, engraçada. Olhei o Luiz Bacci (que é um baita de um profissional e tem um futuro extraordinário), fiz piada e ele também entrou na brincadeira. Pensei: vou amenizar esse programa, vai ser como uma conversa no boteco.
E como você soube que a resposta era boa? Foi a audiência?
Não foi a audiência. Foi um momento simultâneo. Eu fiz a brincadeira com o Percival e o estúdio inteiro riu. O estúdio é o retrato do telespectador da TV. Ali, há técnicos, contra-regra, auxiliar, diretor, um mix do que é a sociedade. No início, alguém ainda me disse: “não podem brincar assim num programa policial”, eu disse: “meu camarada, deixa eu te explicar, vai ser desse jeitinho, tá? Assim, eu não vou enlouquecer”.
Mas e a audiência?
Seria mentira minha dizer que não me preocupo com a audiência, até o dono do supermercado ali na esquina quer vender, é natural. Mas não me regulei por ela (audiência), me regulei por mim, eu precisava me sentir bem. Se isso não acontecesse nessas horas de programa, seria porque o público também não se sentiria bem em casa, porque é um programa policial, é muita tristeza seguida. Isso não impede que eu continue sendo quem eu sou, brincalhão, e na hora de falar sério, eu falo. Houve um componente que ajudou o programa: as grandes manifestações. Não essas de 200 gatos pingados aporrinhando a vida de todo mundo, mas as grandes manifestações pelo Brasil afora. Ali, o programa já estava indo muito bem e foi uma hora que teve que voltar para uma questão séria, porque estavam todos na rua reivindicando um país melhor. Na manifestação, eu falei tudo o que pensava, não ficou ninguém no meu ouvido dizendo o que tinha que ser dito. Isso agregou um valor impressionante.
Você tem total liberdade para falar o que você quiser no seu programa?
Total, total. Se eu disser que ficam me monitorando, é mentira. Eu falo o que eu sinto. A gente pode até depois discutir a questão, mas se eu voltar no dia seguinte falando a mesmíssima coisa, ninguém me enche a paciência.
Você usa ponto eletrônico?
Eu uso ponto eletrônico, e um dia vou ficar surdo, porque o editor-chefe não para de gritar. Eu já disse no ar que vou ficar surdo.
Você já disse no ar que o Bacci estava sendo mal aproveitado aqui no Rio de Janeiro. Houve algum puxão de orelha por conta desse comentário?
Não, ninguém reclamou.
Você acha mesmo que ele está sendo mal aproveitado?
Eu acho que ele está sendo bem aproveitado aí na manhã do Rio. Tanto é que ele fica em primeiro lugar. Olha, se o Bacci tiver um mínimo de juízo, ele vai se transformar rapidamente num dos melhores apresentadores do Brasil. Ele não é pouco, ele é muito talentoso, é seguro, simpático no vídeo. Por isso, fiz essa brincadeira do “com quem o Bacci vai casar?”. Quando cheguei no ‘Cidade Alerta’ e vi o Bacci com aquela cara de Clint Eastwood, eu disse: “é com ele mesmo que eu vou”. O caminho natural dele vai ser assumir um programa importante como apresentador num horário que não seja esse da manhã. O que eu falei no ar é que ele podia ser o quarto apresentador do ‘Domingo Espetacular’.
Seu sotaque é esse mesmo? Você é do interior do Rio?
Eu sou carioca, nascido na Praça da Bandeira.
E esse sotaque?
Nasci no Rio. Depois, já meninote, fui criado no Instituto Padre Severino, na Ilha do Governador. Fui criado lá, meu pai trabalhava lá e a gente tinha uma casa lá. Fui educado com a garotada de lá, por isso eu sempre digo: crime eu conheço de berço, não precisa ninguém me apresentar.
Você brincava com os menores infratores na infância?
A única diferença é que eu estudava num colégio em frente, uma escola de primário chamada Anita Garibaldi. Depois, fui estudar em um colégio da aeronáutica atrás do aeroporto do Galeão. O tempo todo da minha vida de brincar era no meio dos meninos. Meu pai apertava o botão de ‘dane-se’ e eu que me virasse. Aprendi a vida pelo lado mais difícil, não pelo lado mais fácil, e isso foi muito bom para mim. Me deu uma certa facilidade para transitar nesse meio.
Você já passou por quase todas as emissoras de TV, com exceção do SBT. Você guarda mágoa de alguma emissora?
Se tem uma coisa que eu não posso reclamar – seria uma covardia reclamar – é dos lugares por onde passei. Sempre fui bem tratado. Aliás, nunca gostei de chefe, quando eu era repórter, antes de o cara me dar uma pauta, eu já tinha a minha. Eu estava sempre forçando algo que me fizesse escapar do dia a dia. Me formei praticamente nas Organizações Globo, passei pela rádio, pelo jornal, fui para a TV Globo em 1988, onde fiquei até o início de 2002.
Por que você saiu da Globo?
A Globo, na hora de refazer o contrato, não estava muito disposta a aumentar o meu salário e eu tinha recebido uma proposta da Rede TV para ganhar mais do que o dobro do eu ganhava na Globo. Achei que tinha chegado o momento de ver como era a vida lá fora. A Globo é uma baita de uma marca, ela por si só te carrega. Eu quis medir minhas forças sem o guarda-chuva da Globo, que foi uma empresa extraordinária e cuidou de mim a vida inteira.
Qual era o projeto na Rede TV?
Eu ia fazer o jornal da noite e o (Luiz) Datena, o ‘Repórter Cidadão’. Ele estreou e depois de uma semana foi embora, não gostou. Fui fazer o ‘Reporter Cidadão’ no lugar dele. Depois, fui para a Record fazer o ‘Cidade Alerta’, mas tive uma encrenca aqui na Record porque tiraram o programa do ar. Aí, fui fazer um jornal clássico, como é o ‘Jornal Nacional’, o ‘Jornal da Record’, mas aquilo era mais triste que morte de mãe, o negócio era ruim. Eu parecia uma jaguatirica na gaiola, ali, sentado e lendo o que estava escrito. Para ler o que está escrito, eu sento em casa e leio um livro. “Não vou fazer esse jornal, não”, falei. Eu não quis voltar para o ‘Repórter Cidadão’, eles rescindiram o meu contrato, fizemos um acordo e eu fui para a Band, onde inventei um programa às sextas chamado ‘Tribunal na TV’.
E sua volta para Record?
A Record me chamou de volta. Fui fazer um negócio chamado ‘Grandes Reportagens’, no ‘Domingo Espetacular’. E aí a Record ressuscitou o ‘Repórter Record’. Na semana em que o programa ficou em primeiro lugar, inventaram o ‘Cidade Alerta’, que eu não queria fazer, mas fui por insistência. Pensei: é hora de fazer outra coisa nesse programa, e a gente volta ao início dessa conversa. Fui para fazer como eu faço na minha vida. No estúdio, eu trabalho muito pouco, fico mais tempo enchendo o saco dos outros.
Você acha que esse é o seu melhor momento na carreira?
Falando de televisão, o primeiro grande foi com as minhas reportagens investigativas (aliás, acabei de escrever um livro contando as histórias da minha vida de repórter), o segundo momento é o ‘Linha Direta’, o trabalho de pensar o programa, eu trouxe alguns amigos, o Tim Lopes, por exemplo, que era meu amigo desde menino. No ‘Linha Direta’, que se tornou uma das três maiores audiências da Globo, as pessoas me reconheciam na rua, me paravam para falar dos casos. Essa fase atual é diferente: as pessoas me param para rir, felizes, ninguém me fala de crime, só perguntam se o Percival está no Twitter, se o Bacci vai casar, se o comandante Hamilton usa botox. A vida é feita para você dançar com ela, senão ela dança contigo. Você não tem ideia de quantas crianças me param na rua. Outro dia o filho da Chris Flores (apresentadora da Record), que tem 7 anos, gravou uma fita imitando o ‘Cidade Alerta’ e fez a Chris vir aqui me entregar.
Você tem cinco filhos de cinco casamentos, é isso?
Nem fala isso aí, não. Vai que alguém queira casar comigo de novo?! Eu não quero casar mais.
Você, então, está solteiro?
Estou, sim. E é bom, meu camarada. Meu último casamento durou 18 anos e foi ótimo até o antepenúltimo dia. Eu deixei chegar no último.
Como é sua relação com o Datena?
Ah, eu gosto muito dele.
Outro dia ele xingou o presidente do Ibope porque estava perdendo feio para você. Como é essa relação de amizade e guerra de audiência?
Gosto muito do Datenão, já bebemos muito juntos, tenho um carinho muito especial por ele. Datena tem um coração extraordinário, mas ele deixa que a vida dance com ele, ele é o contrário, ele tá sempre sobrecarregado de coisas, ele tem que deixar a vida passar senão ela passa o rodo em cima dele. Ninguém conhece o Datena, ele é uma doçura de cara.
Algum repórter já ficou magoado com as críticas que você faz ao vivo no programa?
Olha, se alguém ficou magoado, não me falou.
Você diz para o repórter: meu filho, que pergunta é essa?!?.
Vou te contar uma história: um dia, quando eu estava no ‘Repórter Cidadão’, um repórter no cemitério perguntou ao tio do menino morto: “você está aqui por um motivo muito triste, né?”, eu olhei e disse assim “fecha o áudio”. Aí, eu disse ao repórter: “não, meu filho, ele está aí porque viu um monte de fantasmas na porta e achou que fosse um baile à fantasia”. Desculpe, não dá, não sabe fazer uma pergunta? Então, eu digo no ar o mesmo que a pessoa está pensando em casa quando ouve uma pergunta dessa.
De onde surgem os bordões?
Do nada. Sai na hora ou não sai. O “corta pra mim” surgiu na minha tentativa de fazer com que um diretor devolvesse a imagem para mim para eu contar a história. Eu disse “corta pra mim, porra”. Aí, comecei a falar isso sempre. Veio o “põe ‘exclusivo’, minha filha, que dá trabalho pra fazer”. Essas coisas vão surgindo e eu vou falando.
Como é a sua segurança?
É zero, meu camarada.
Você não anda armado, não tem segurança?
Tá louco?! Eu sei o mal que isso faz. Ando na rua, vou onde tenho que ir, vou ao botequim tomar café com pão. Nem na Globo, com o ‘Linha Direta’, nada. Gosto muito de andar sozinho, até porque se acontecer alguma coisa, vai acontecer só comigo, né? Se alguém quiser te pegar, vai te pegar. Se já deram tiro até no Papa e no presidente dos Estados Unidos…
Você acha que valeu a pena ter entrevistado o goleiro Bruno?
Estávamos negociando a entrevista há dois anos e sete meses. Tem uma diferença dar voz a bandido quando o traficante faz gracinha no microfone, mas num caso como o do Bruno ou do Guilherme de Pádua, você traz a história e deixa o telespectador avaliar se o cara está mentindo ou não.
Quais foram suas impressões antes e depois da conversa com o Bruno?
Ele não sabia que o tal do Macarrão ia levar a Eliza Samudio para a morte, mas ele apertou um botão de dane-se. Quando o Macarrão disse para ele que ia resolver do jeito dele, o normal era que ele perguntasse que jeito é esse. Era como se ele dissesse “resolve aí”. Depois, viu que a menina estava morta e tentou esconder. O Bruno Fernandes queria se esconder atrás do Bruno do Flamengo, mas não deu. Ele fez gol contra.
Fala um pouco do livro que você vai lançar em novembro sobre sua carreira?
Escolhi umas 10 reportagens, como Maníaco do Parque, Favela Naval, o ‘Globo Repórter’ sobre o Ricardo Teixeira, do Eurico Miranda… Conto não só como se faz, mas também como você trabalha, para não errar ou para não morrer, são os bastidores da informação, como as empresas se movimentam em relação a você, as pressões que você sofre, as chefias angustiadas… Investigação é bonita quando vai ao ar, mas fazer dá muito trabalho.
Você acha que vai ficar quanto tempo mais no ‘Cidade Alerta’?
Tá bom pra mim aqui, estou tranquilo. Coloquei para tocar com a partitura que eu quis, ninguém reclama – muito pelo contrário. E o ‘Cidade Alerta’ agregou muita simpatia para a emissora. As pessoas veem o programa como uma família que entra na casa de outra família. Fico muito feliz com isso.
Postado por: Leo Dias/O Dia RJ
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