O diálogo abaixo é real, porém os personagens fictícios, para preservar a identidade das pessoas envolvidas!
Madalena foi vítima de violência obstétrica num hospital particular de Belo Horizonte, que aconteceu desde comentários inúteis e agressivos da equipe de enfermagem até a indicação de cesárea, com 9 cm de dilatação, porque o médico achou que era tempo demais para esperar. Num dos inúmeros exames de toque, ele identificou mecônio (que era pouco, ralo … quase um cheiro apenas) e batimentos cardíacos normais, mas mesmo assim, a urgência dele em retirar a autonomia da mulher era demais, descarada e absurda. Desde o momento que ele chegou ao plantão e viu que se tratava de uma parturiente afim de parto normal, se posicionou de forma reativa e mascarada, como se estivesse respeitando, mas dizendo e fazendo intervenções extremamente desnecessárias e agressivas, até o cume de uma cesárea, que teve de pacote 3 ou 4 anestesias e uma mãe apagada que não viu seu filho nascer.
Falava sobre isso junto com sua doula Maria, justamente 9 meses após o ocorrido. Muita dor, muitas fichas caindo, muita elaboração … e auto conhecimento. Madalena tentava se lembrar como foi a indicação de cesárea e a reação dela.
Madalena: Mas quando ele (o médico) disse que seria cesárea lembro que me fez algumas perguntas, mas eu não consegui analisar, naquela hora…
Maria: Poderíamos ter pedido um tempo para ele, para conversarmos com mais calma.
Madalena: Mas o que eu poderia ter feito? Eu poderia negar a cesárea? Sair dali? Fugir?
Pausa na conversa! Vamos para o texto, para a discussão!
Eu não vou aqui, falar sobre os motivos fúteis de cesárea, sobre a realidade obstétrica no Brasil, sobre a sacanagem dos “obstêtras” e o puro desconhecimento técnico de alguns obstetras. O portal Vila Mamífera está recheado de informações e qualquer pessoa, com um pouco de vontade acha todas as informações que precisa.
Mas vou falar aqui, sobre empoderamento feminino. Que pode significar desde recusar uma cesárea, até se tornar vegetariana ou decidir não domar cabelos rebeles. E sim, também pode significar estar sempre na moda. A palavra chave aqui é escolha! Então, peço licença aos leitores porque vamos falar de várias coisas. Paciência, vou explicar.
Empoderar-se é tomar as rédeas da própria vida. Considerando-se que estamos ainda na era do patriarcado – embora muitos acreditem que não, já saímos dessa era – tomar as rédeas tem um sentido especial. Quando eu falo isso, imagino uma mulher descendo da carruagem da vida e tirando, a força, as rédeas da mão de alguém (seja um homem, um pai, uma mãe, uma família, uma sociedade, um trabalho) e guiando, da forma que bem entende e principalmente, da forma que sua alma precisa.
Essa coisa de que “a alma precisa” é sério, porque nenhuma mulher tem sua alma em paz, com um corte em sete camadas na barriga. Sim, há aquelas que aceitam, querem, acham lindo, mas não quero falar deste tipo de alienação. Quero falar de mulheres que reconhecem sua fisiologia, seu corpo, seus instintos e os usam para tudo: gestar, parir, transar, relacionar, falar, ajudar. Usam com os médicos, amigos, pais, filhos, maridos. Quero falar do espirito livre, da emancipação do ser, do afloramento da parte selvagem que todas nós temos. Eu estou falando aqui daquele vibrar do coração, daquele calor que nos cobre toda vez que nos sentimos ameaçadas, com medo. E neste momento, existe uma parte de nós que quer obedecer e ficar quieta, para não ser aniquilada, mas tem uma parte que quer guerrear. Enfrentar. Seguir adiante, rumo ao obedecimento do espirito indomável. E essa escolha, da guerra é inevitável. Você pode até não escolher e se aquietar, mas nunca terá paz. Sempre que você ouça, no minimo o som do coração, você não ficará em paz.
Há quem fale que mulher nunca tem paz. Que é um ser complicado, que nunca está satisfeita, que quer sempre mais. Eu arrisco a dizer: mulher não quer sempre mais, ela quer ser. Simples assim. Mulher não se define em nenhuma teoria porque a existência dela é grandiosa, expandida, intensa. Mulher não se resume a papéis. Ela é o teatro da vida. O palco da humanidade. Tente reduzir uma mulher a algo e verá uma tragédia. Ou verá um ser se desmanchando, morrendo ou verá uma guerra bonita, cheia de luz e descobertas.
Não sou sempre flor. Às vezes espinho me define tão melhor.
Mas só espeto os dedos de quem acha que me tem nas mãos.
[Marla de Queiroz]
Então, voltando ao assunto inicial, sim, uma mulher pode, deve, quer dizer não à um cesarista tosco. Uma mulher pode negar sexo, pode querer muito sexo. Pode escolher ser mãe em tempo integral dando um foda-se para a sociedade que diz que mulher tem que ter sua “independência” e trabalhar. E pode sim, conciliar trabalho e criação de filhos. Mulher pode ser bi sexual, experimentar novas formas de relacionamento, pode poliamar. Ela pode querer dar um mergulho, numa cachoeira gelada, numa quarta feira cinzenta, deixando todos os compromissos pra trás. Ela pode se envolver num trabalho que aparentemente não dá dinheiro, mas trás uma felicidade imensa em exercê-lo. Ela pode ser criativa e pode querer mais de uma profissão. Ela pode confrontar a mãe e desapegar-se das amarras que a colocam nessa dualidade mãe-filha. Ela pode provocar, pode ser sexy e pode ser quieta. Ela pode descobrir-se, evoluir, inspirar-se. Ela pode ir e experimentar, e voltar – se quiser. Ela pode propor-se novas formas de vida. Ela pode sentir medo, mas não aprisionar-se a ele. Ela pode chorar, querer e desistir também. Mulher é espirito livre, solto. Não se prende, não se domina, não se mantém sobre olhares duvidosos.
Por muitos anos a mulher vem lutando para sair desse papel de vítima, o qual se formou justamente para que ela não se re-conheça. Mas nós estamos nos unindo, estamos nos fortalecendo. Quem diz que mulher compete uma com a outra, desconhece o verdadeiro poder de uma mulher. Nós não competimos. Nós nos unimos. Damos a luz, amamentamos, criamos, amamos, nos doamos e buscamos. Sim, por vezes nos desviamos deste caminho, mas logo uma outra mulher nos aparece para nos lembrar do que realmente importa. E juntas, seguimos! Lembre-se: não existe um jeito de se portar mulher, de parecer feminina. Existe o seu jeito de ser.
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