O autor Walcyr
Carrasco crê que a aceitação dos personagens não aconteceu por acaso.
Mas envolve um processo histórico que começou lá atrás, através de
autores como Gilberto Braga, Silvio de Abreu, Gloria Perez e Manoel
Carlos
Quando Amor à Vida estreou, em maio de
2013, um romance entre Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago. Fragoso)
parecia inviável até mesmo na cabeça do telespectador mais imaginativo.
Afinal, enquanto o primeiro foi apresentado como um gay enrustido,
pérfido, dono de comentários ácidos, o segundo era a síntese da
estabilidade: um rapaz casado, sensível e apaixonado pelo companheiro, o
advogado Eron (Marcello Antony), com quem planejava ter um filho.
No
meio do caminho, entre uma trama rocambolesca, cheia de encontros e
desencontros, idas e vindas, quis o destino - ou melhor, o autor Walcyr
Carrasco - que Félix se redimisse e Niko se separasse. E que os dois se
gostassem e quisessem ficar juntos. E, talvez o mais improvável: que a
dupla tivesse o aval do público e conquistasse o status de casal
principal da trama, desbancando Paloma (Paolla Oliveira) e Bruno
(Malvino Salvador).
"Niko
e Félix um casal legal, querido. A gente brinca muito com o humor, um
fala em cima do outro o tempo todo. Há companheirismo, e os dois têm
personalidade forte. O Niko é fofo e não gosta de alguns comentários do
Félix, mas, ao mesmo tempo, o acha engraçadíssimo. Essa complexidade faz
o casal ficar tão interessante, cheio de sutilezas. E o fato de eles
serem gays contribuiu", avalia Thiago, contando que sua mulher (Mariana
Vaz) sempre torceu para que os dois ficassem juntos: "Ela estudou com o
Mateus no colégio e gosta muito dele. E Félix não tinha um par na
história, Anjinho (Lucas Malvacini) era mais um caso. Comecei a achar
que havia espaço para esse triângulo", entrega.
Walcyr
crê que a aceitação dos personagens não aconteceu por acaso. Mas
envolve um processo histórico que começou lá atrás, através de autores
como Gilberto Braga, Silvio de Abreu, Gloria Perez e Manoel Carlos. "Eu
apenas dei continuidade a um processo iniciado por eles e, espero sim,
dar um passo adiante", torce. Mesmo
garantindo não ter alterado a história por conta da popularidade do
casal, ele confirma que o romance não estava previsto na sinopse. Mas,
ao longo dos capítulos, ele diz, se manteve antenado para sentir "o que
rola e o que não rola", em um processo intuitivo. "Veja bem, a pesquisa
da novela é feita apenas no início, para uma análise das primeiras
respostas. Depois, o autor fica ligado com sua antena e, a partir daí,
cria seus caminhos, mas sem especificamente ouvir alguém ou mesmo haver
alguma interferência da emissora. O meu segredo é assistir à novela
todos os dias, junto com o público", revela o autor.
Mimado
Para Mateus Solano, Félix passou a novela sendo
"deseducado". Para o ator, o personagem "foi mimado pela mãe quando
deveria ter sido reprimido, ganhava reprovação do pai quando precisava
de incentivo". Tal desequilíbrio só se transformou em algo positivo
quando ele se viu obrigado a vender hot dog com Marcia (Elizabeth
Savalla). Foi aí que, observa Mateus, Félix teve que reavaliar os
conceitos de vida.
"Ele teve que aprender na marra a dar valor às
coisas certas. O Niko é uma delas, mas não a única, e a relação deles
mexe com uma outra coisa que é a incapacidade do Félix de amar. Primeiro
de ele gostar de si próprio, e segundo de aceitar que alguém possa
gostar dele. Como o filho, Jonathan (Thalles Cabral) e a Marcia, que foi
fundamental", analisa Mateus, contando que não esperava nenhuma das
mudanças. "Félix passou por tudo e mais um pouco, desde a ‘revelação’ da
homossexualidade, passando pelo episódio que assume ter jogado Paulinha
(Clara Kastanho) da caçamba, ganhar a presidência até perder tudo".
Ao
mesmo tempo, Niko caiu nas graças do público pelo jeito sensível e
cativante. Por gostar de Fabrício sem saber que era sequer seu filho
biológico. E por adotar Jaime (Kaiky Gonzaga) e criá-lo praticamente
sozinho. A loucura de Amarilys, por sua vez, funcionou como uma
contraponto e aumentou ainda mais a compaixão pelo sushiman. "O público
brasileiro é conservador e, pela primeira vez, não ficou ao lado da mãe,
mas, sim, ao lado do afeto mostrado por esse cara que nem sabia que era
pai biológico da criança. E isso é muito revolucionário, porque dentro
da humanidade de cada um, a opção sexual é o que menos importa", define
Thiago.
E
tanto ele quanto Mateus concordam ao definir a trajetória de Félix como
um conto de fadas. Por que não? "Walcyr acredita nesse conto de fadas.
Foi bonito o universo que criou e as pessoas compraram a ideia de que o
mal pode se redimir. Não é real. Vejo como uma grande metáfora: Tinha o
cara totalmente bom e o totalmente mau, e o mau foi contagiado pelo bem.
E essa regeneração é a mensagem que a novela pode passar", acredita
Thiago. Mateus também acha que
um dos méritos de Walcyr foi não se prender tanto à realidade. Ele acha,
por exemplo, que aqueles que torcem para o Félix tiveram que aceitar
suas inverosimilhanças ao longo dos capítulos: em alguns momentos, a
caricatura; em outras, o drama em demasia: "Ele faz graça nos piores
momentos, chama a secretária de cadela e outras coisas que seriam
inverossímeis, mas que a gente gosta de ver e compra".
E
o jeito ácido e franco do vilão, sempre permeado pelo humor, foi
exatamente o que fez as pessoas gostarem dele e ficarem na torcida para
que encontrasse alguém, continua Mateus. "Vivemos num mundo em que não
podemos falar nada, nem ofender ninguém. Acho que ele se tornou uma
válvula de escape, e isso foi perceptível quando comecei a ver várias
montagens na internet com o rosto dele ao lado de frases preconceituosas
ou malvistas. A verdade é que todo mundo tem um Félix dentro de si",
desafia. "O público primeiro aceitou o Félix. E depois o fato de que ele
precisa de um homem para ser feliz. Algumas pessoas então reviram seus
conceitos e seus preconceitos".
Carícias sutis
E após conversas francas, sinceras e cheias de afeto
nos últimos capítulos, Félix e Niko chegaram até a trocar carícias
sutis. E na próxima semana, Walcyr sugere, em uma cena, que os dois vão
passar a noite junto. Mas ele conta que foi "extremamente discreto".
Embora o autor afirme ter o aval da emissora para escrever sobre o que
quiser, Thiago acha que o beijo gay não vai acontecer. E nem um
casamento, como é de praxe no último capítulo.
"Adoraria
ver o casamento, ia ser ótimo gravar, mas acho que Walcyr teve essa
preocupação de não ser panfletário. E se tiver o beijo gay, vou fazer
superfeliz, acharia o máximo, mas na nossa sociedade com valores sociais
deturpados, acho que seria considerado mais agressivo esse beijo entre
dois homens, mais do que entre duas mulheres. Talvez por isso não
tenha", avalia Thiago, afirmando que não gravou cena de beijo e isso não
está no roteiro, por enquanto: "Se chegar um adendo secreto, vou ficar
superfeliz".
Já
Mateus não vê a necessidade real do afago, já que, para ele, Walcyr
ultrapassou a questão do beijo e tocou em questões até mais profundas.
"Em cena, eles têm diversas demonstrações de carinho e o beijo não faz
falta", assegura. Crer que não há homofobia seria ingenuidade, conclui
Thiago, que, todavia, defende o papel da arte como reflexão. "A arte é a
alma do mundo. E embora o comportamento geral não tenha mudado
totalmente, me sinto satisfeito ao perceber que toquei ao menos um
coração com a nossa história".
Telespectadores da novela da Globo/ TV Bahia falam o que esperam para Niko e Félix, no final de Amor à Vida
Embora tenha chegado de surpresa, a aproximação
entre Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano) ganhou adesão
imediata de quem torcia para um final feliz para os dois, caso do
estilista Carlos Tufvesson, da acadêmica Maria Immacolata e do deputado
federal Jean Wyllys. A pedido da Revista da TV, o trio comentou suas
impressões sobre o casal e sobre como gostariam de vê-los no fim da
novela de Walcyr Carrasco, que termina na próxima sexta-feira.
Carlos Tufvesson: "Walcyr
levou ao público o casal do mesmo sexo como qualquer outro que se ama e
não como dois seres que só pensam em transar o dia todo! Mas querem ter
filhos, amam, lutam por eles. E, incrivelmente, esse entendimento pode
levar à quebra de uma grande tabu na TV: o beijo do casal do mesmo sexo.
O jeito primoroso como o Thiago moldou o Niko faz com que o público
espere esse momento e torça por ele. O beijo será uma resposta. Não
tinha um contexto bem definido para que rolasse. Agora tem uma grande
torcida, e acho que vai acontecer. Viemos à Terra para sermos felizes e
nada pode adiar isso".
Maria Immacolata: "Colocar
um casal homossexual que já está junto, estável e que quer ter um filho
é um passo à frente. Niko foi visto com simpatia. Ele é tão paternal,
afetuoso e bom-caráter que a sexualidade ficou em segundo lugar. E Félix
é tão humilhado pela família, com tantos dramas pessoais que foi aceito
pelo público. A relação entre eles está sendo tratada com delicadeza e
coragem, de forma inovadora. É fantasia, mas nada sem pé nem cabeça. A
função social da novela é esse avanço, que chamo de tolerância. Ela
reflete a complexidade para ser formadora de opinião".
Jean Wyllys: "Niko
caiu nas graças do público pelo desejo de ser pai numa sociedade onde a
infância é abandonada. E para Félix, Walcyr planejou um processo de
redenção e trouxe um elemento que independente do gênero: o amor. Por
ter uma audiência heterogênea, a novela não pode ousar demais na
representação do homossexualidade, mas acho que a representação na
ficção ajuda a modificar comportamentos, sim. Uma mãe que vê um Niko, de
caráter, nobre, trabalhador, passará a ver seu filho de outra forma,
embora vá contra os preceitos da sociedade em que ela nasceu."
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