Carlos Chagas
Fala-se do ex-presidente
Itamar Franco. O executor seria o ministro Eliseu Resende, infelizmente
demitido dias depois de empossado por haver permitido que uma
empreiteira pagasse suas diárias num hotel de Nova York. Coisa naqueles
idos rotineira, como mais ou menos hoje. Com Itamar, porém, era na
moleira: qualquer auxiliar acusado de irregularidades via-se
imediatamente mandado embora. Que fosse defender-se fora do governo,
retornando caso declarado inocente. No caso de Eliseu, não houve defesa.
Assim, o então presidente
defrontou-se com grave questão: encontrar logo um novo ministro para
desenvolver o plano de recuperação econômica ou cair no descrédito. Sem
opções, apelou para seu ministro de Relações Exteriores, Fernando
Henrique Cardoso, então posto em sossego e conformado em encerrar sua
carreira política entre banquetes e coquetéis desimportantes. Não se
reelegeria senador e, mesmo para deputado, não parecia fácil.
Itamar encontrou o
sociólogo numa embaixada em Washington e, em curto telefonema, fez o
convite. FHC refugou de imediato. De jeito nenhum. Não era economista e
estava muito bem no Itamaraty. Foi dormir certo de haver espantado
aquele fantasma descabido e impertinente.
De madrugada o telefone
toca outra vez, agora no hotel. Itamar de novo, mais ríspido do que o
normal, participando ter encaminhado às oficinas do Diário Oficial
decreto nomeando Fernando Henrique ministro da Fazenda. Era acatar a
disposição ou demitir-se do ministério das Relações Exteriores.
De volta no avião, aliás,
de carreira, não demorou muito para absorver a nova situação e veio
pensando como desatar aquele nó monumental. Pensou primeiro em Pedro
Malan, depois em José Gregori e enfim naquele grupo de cabeludos do
Departamento de Economia da PUC do Rio. Desembarcou entregando seu
futuro a Deus, mas logo reuniu a equipe. Em poucos dias fluíram as
sugestões tidas por muita gente como doidinhas, a começar pela mudança
no nome da moeda. De cruzeiro para real.
Não se pode tirar de
Fernando Henrique o mérito de ter enfrentado o desafio e de submeter-se
às propostas do grupo recém formado. Claro que pensou na hipótese de,
diante do êxito, transformar-se em candidato presidencial.
Quem tomou a decisão
fundamental, porque política, porém, foi o presidente Itamar Franco.Nem
ele nem o novo ministro da Fazenda entendiam de economia. Sendo assim,
soou um pouco estranha a homenagem prestada pelo Senado por iniciativa
de Aécio Neves, que centralizou em Fernando Henrique Cardoso as
lantejoulas, confetes e serpentinas pelos vinte anos do Plano Real. Se
Itamar não foi esquecido, viu-se ao menos posto em cone de sombra.
Coisas da ingratidão…
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