Pedro do Coutto
Em artigo muito bom, publicado na Folha de São Paulo, edição de 5 de
junho, Eliane Cantanhêde critica as entrevistas da presidente Dilma
Rousseff programadas pelo Planalto junto a algumas emissoras, nas quais a
chefe do executivo fala confortavelmente a respeito de assuntos
relacionados com a Copa do Mundo e a Seleção Brasileira. Em seguida faz
uma lista de perguntas que deveriam ser formuladas e respondidas pela
candidata que busca a reeleição nas urnas de outubro.Eliane Cantanhêde está certa: falta exatamente esse ponto na campanha eleitoral. Mas como ela apresenta a lista das indagações, esta parte do texto pode democraticamente funcionar como roteiro para que Dilma Rousseff vá ao encontro e focalize o conteúdo das respostas que possa fornecer.
Não seria nada demais. Apenas um lance destacando o caráter democrático da disputa pelo voto. Não vejo, pessoalmente, nenhum motivo lógico convincente para que a presidente evite um diálogo mais amplo a respeito da atuação de seu governo na economia e na administração do país. Inclusive os temas serão inevitavelmente colocados nos debates a serem promovidos pelas redes de televisão, pelos grandes jornais, e também através da internet. Não adianta, portanto, o Planalto, com sua estratégia de marketing, tentar ocultar essa face do confronto político na busca dos votos.
SÃO MUITAS VANTAGENS
O confronto surgirá naturalmente. Impossível evitá-lo, faz parte do processo político, da luta pela conquista do poder. Dilma Rousseff, aliás, já participou de cotejo semelhante nas eleições de 2010, há quatro anos passados. Não há motivo, portanto, para não expor seus pensamentos, seus novos projetos, seus resultados, sua plataforma. As vantagens de que dispõem os ocupantes do poder já por si muito grandes. Coisas da legislação brasileira.
Por exemplo: o presidente, o governador, o prefeito que se candidatam à reeleição não precisam deixar o cargo seis meses antes do pleito, o prazo legal para desincompatibilização. Podem nos postos permanecer atuando com o maior desembaraço, incluindo obviamente o uso, mesmo que nos limites da lei, a utilização da caneta mágica. Mas se um ministro desejar, por hipótese, candidatar-se a governador ou senador, tem que deixar a pasta até abril, seis meses antes do voto.
São dois pesos e duas medidas que expõem a legislação brasileira às críticas mais simples. Uma contradição total. Pois se para, vejamos outro exemplo, um diretor de empresa estatal for disputar uma cadeira de deputado tem que se afastar até 180 dias antes do voto, por qual motivo o presidente da República, o governador e o prefeito são exceções à regra? Esta já é, por si, uma vantagem enorme de quem ocupa o poder, desnecessariamente serão outras que venham a se adicionar a esta.
ENTREVISTAS PROGRAMADAS
Não há assim sentido na realização de entrevistas programadas, sobretudo porque elas não são convincentes. Nada acrescentam. Pelo contrário. Os espectadores sentem os cenários armados previamente, a falta de liberdade tolhendo os entrevistadores. Ao invés de somar, reduzem. Porque o problema principal da comunicação política está na liberdade das indagações e o grau de convencimento das respostas. Fora daí, os reflexos serão sempre negativos. Eliane Cantanhêde colocou claramente a questão essencial, na estrada dos votos no rumo das urnas.
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