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"O sucesso de Barbosa, como relator da Ação Penal 470, o chamado
mensalão, lustrou a imagem externa do ministro. Mas junto à elite da
comunidade jurídica foi motivo apenas de desconsolo", diz o jornalista
Marcio Chaer, editor do portal Consultor Jurídico, em artigo sobre os
bastidores da saída repentina de Joaquim Barbosa do Supremo Tribunal
Federal.
Em uma noite calorenta de Brasília em maio de 2005, um jornalista
pôs-se a dar conselhos a Joaquim Barbosa, então ministro do Supremo
Tribunal Federal. Nos seus dois primeiros anos na corte, Joca, como o
chamam os mais próximos, mostrava-se perdido nas funções. Ele ouviu que
precisava encontrar seu espaço no tribunal. Mostrar a que veio.
Por essa época, cada voto era um suplício. Até a leitura da decisão,
preparada pela assessoria, a coisa ia bem. Mas quando chegava a hora dos
costumeiros questionamentos dos demais ministros ao relator,
complicava. Atônito, sem respostas, ele se punha a reler o voto — que
não contemplava a informação solicitada. Uma nova pergunta se seguia de
nova leitura do voto.
Até que um ou outro colega mais paciente, ou menos cruel, passou a
vir em seu socorro. “Vossa Excelência, então, quanto à preliminar
suscitada, acolhe os embargos, certo?” Ao que Joaquim murmurava algo em
sentido positivo. Outro completava: “Quanto ao mérito, o relator
considera prejudicado o pedido, é isso?”. Com uma variação ou outra, os
votos iam sendo acochambrados até se dar formato a uma decisão
inteligível ou minimamente satisfatória.
Naquela noite de maio, quando se sugeriu a Barbosa divulgar melhor
sua produção técnica, outro ministro ouviu parte da conversa. Em outra
roda, da qual participavam cinco colegas dele, o assunto virou piada.
“Olha o que ouvi agora: sugeriram ao Joaquim mostrar sua contribuição
técnica no Supremo”. E todos caíram na risada.
A pelo menos um amigo, Joaquim Barbosa confessou sua vontade de
abandonar o tribunal. Mas foi aconselhado a desafiar e “peitar” a
estrutura. No campo do Direito ele não tinha como se destacar, estava
claro. Mas poderia puxar os colegas para outro ringue em que eles não
tivessem como superá-lo.
No livro Como a picaretagem conquistou o mundo, o jornalista
britânico Francis Wheen analisa a receita da construção de personagens
que, com largas doses de demagogia e populismo chegaram a altos cargos,
como a presidência dos Estados Unidos ou ao cargo de primeiro-ministro
do Reino Unido. Em uma das resenhas dessa obra, o crítico Rafael
Rodrigues cita o teatrólogo Nelson Rodrigues, que disse que esses
personagens tomaram o lugar dos melhores a tal ponto que se criou “uma
situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o
idiota o extermina”.
É claro que Joaquim Barbosa não se enquadra no perfil. Mas o livro é
pedagógico no sentido de evidenciar como a construção de um personagem,
no mundo da política, do jornalismo, das artes ou das finanças,
possibilita o sucesso sem que a celebridade artificial tenha realmente o
estofo para pontificar no píncaro a que foi alçado.
Assim como nos primeiros anos em que ralhava com seus assessores por
não preverem as perguntas que lhe seriam feitas em Plenário, o ministro
manteve-se até o fim em estado de guerra com quase todos os colegas.
Aperfeiçoou-se no uso da comunicação instantânea pelo laptop de tal
forma que outros ministros resolveram não levar mais o equipamento para a
bancada. Mas isso aliviou bastante o que considerava uma prática
maldosa dos colegas: as tais perguntas embaraçosas.
Em sua passagem pelo STF, Joaquim Barbosa raramente recebeu advogados
que lhe solicitavam a oportunidade de oferecer subsídios para suas
decisões. Essa tarefa era penosa para ele da mesma forma que a
interlocução com os ministros em Plenário. A sua explicação era que
considerava esse tipo de “conluio” indecoroso. Em entrevista à revista eletrônica Consultor Jurídico, o também ministro aposentado Cezar Peluzo, aponta outro motivo, mais prosaico, que cabia numa só palavra: insegurança.
Na mesma entrevista, Peluzo contrariou outra crença disseminada
largamente por Barbosa: o de que suas ausências no plenário e sua
impaciência com as sessões deviam-se a problemas de saúde.
O sucesso de Barbosa, como relator da Ação Penal 470, o chamado
mensalão, lustrou a imagem externa do ministro. Mas junto à elite da
comunidade jurídica foi motivo apenas de desconsolo. As poucas vozes que
ousaram "chutar a santa" canonizada pela opinião pública, sedenta de
vingança contra a comunidade política em geral e contra o PT em
particular, enfrentaram o risco aventado por Nelson Rodrigues e as vaias
da plateia.
Como presidente do Conselho Nacional da Justiça, originalmente
apelidado de órgão de controle externo do Judiciário, Joaquim Barbosa
viveu um paradoxo lógico entre o substantivo e o adjetivo. Durante toda
sua gestão, foi o mais feroz crítico do sistema judicial e seus
protagonistas. Mas não apresentou ou aprovou uma única proposta que
corrigisse as distorções e deformações elencadas por ele mesmo. Na
análise de pessoas que acompanham a carreira de Barbosa, o seu portfólio
como procurador da República (em que passou dez de vinte anos em
licença), como ministro e como presidente do STF e do CNJ têm igual
relevância. A sua contribuição técnica, jurídica e institucional deixam a
mesma marca nos três órgãos.
Por fim, depois de onze anos de embates e desinteligências, ao menos
se sabe que Joaquim Barbosa e os ministros do Supremo, no plano
institucional, concordaram em alguma coisa. Essa ideia se resume na
sintética expressão que o ministro divulgou em seu perfil no Twitter, ao
se retirar do ringue: "Alívio, finalmente".(Tribuna Da Imprensa )

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