Prática comum nas campanhas, prefeitos, vereadores e lideranças comunitárias chegam a cobrar R$ 40 por voto na conquista de eleitores para deputados estaduais e federais
Leonardo Augusto
A
disputa eleitoral termina e o candidato vê que obteve número expressivo
de votos em um município onde, pessoalmente, não distribuiu um santinho
sequer. Parece mágica, mas a verdade é que por trás da expressiva
votação existe um responsável, que passa quase sempre despercebido
durante a campanha. São cabos eleitorais de luxo: prefeitos, vereadores e
lideranças que cobram caro para abraçar as candidaturas a deputado
estadual e federal. Com planilhas bem organizadas, têm na ponta do lápis
a quantidade de votos que podem render. Tudo depende de quanto o
concorrente está disposto a desembolsar. O serviço é tão requisitado que
gerou atrito entre deputados estaduais e federais. As ofertas estariam
altas demais, inflacionadas por candidatos com maior poder financeiro.
Com base em quanto estão cobrando os cabos de luxo, o voto, por exemplo, em Minas Gerais custa hoje entre R$ 35 e R$ 40. Uma liderança de Matozinhos, município com 28 mil eleitores na Grande Belo Horizonte, garante que, com R$ 30 mil, consegue 800 votos para um deputado estadual ou federal. O serviço oferecido inclui pagamento de pessoal para distribuição de material de campanha, lanche para a equipe, um veículo para transporte equipado com som, panfletos, além do aluguel de uma sala. Questionado sobre com quanto ficaria, a liderança, que assim como outros colegas de função evita se expor, responde: “você acredita que a gente nem se preocupa tanto com isso? A gente quer é dar o resultado. Se o candidato chegar na urna e não achar voto, eu piro”, afirma.
O mesmo desprendimento em relação ao dinheiro é demonstrado por um vereador de Santa Rita do Sapucaí, cidade com 30 mil eleitores na Região Sul de Minas. “Me preocupo com o resultado. Não adianta prometer e não conseguir cumprir. É o meu nome que está em jogo”, diz. O parlamentar repete as contas feitas pela liderança de Matozinhos. “É mais ou menos isso mesmo, R$ 35 a R$ 40 por voto.” Orgulhoso do serviço, relembra o trabalho realizado na eleição de 2010: “teve deputado que veio aqui uma vez e, mesmo assim, conseguiu 702 votos na cidade”.
Em Jabuticatubas, também na Grande Belo Horizonte, onde estão em disputa 12 mil votos, as planilhas dos cabos de luxo são semelhantes às das outras cidades, mas, conforme um vereador, há no município uma elevação nos valores que parte dos candidatos dispostos a pagar. “Estão dando até R$ 100 para quem coloca adesivo no carro. Sem contar a gasolina para rodar com o veículo pedindo votos”, diz o parlamentar, que afirma trabalhar para a ala mais pobre de candidatos que fazem campanha na cidade. “Vamos fazer uma denúncia ao Ministério Público”, diz. Segundo o vereador, em Jabuticatubas, assim como em Matozinhos, com R$ 30 mil é possível conseguir 800 votos para deputado estadual ou federal.
Pressão
Na ala mais abastada de candidatos, que estaria puxando para cima os recursos canalizados para as campanhas, está Newton Cardoso Júnior (PMDB), filho do deputado Newton Cardoso. Em disputa por vaga na Câmara, o concorrente registrou projeção de gastos de R$ 5 milhões na campanha. Apenas em Matozinhos, o candidato afirmou a lideranças que pretende colocar R$ 105 mil. O anúncio teve como consequência uma pressão maior dos cabos de luxo pelo aumento dos recursos de outros candidatos. As campanhas, de forma geral, são casadas — um deputado estadual e um federal, e o mesmo valor gasto por um, também deve ser disponibilizado pelo outro.
A campanha de Newton Júnior deverá se concentrar na Grande Belo Horizonte, no Norte de Minas e no Centro-Oeste, onde o candidato chega a pagar R$ 6 mil por cabo eleitoral, sem terceirizações. O postulante negou que tenha iniciado a contratação de pessoal e serviços para campanha. “Ainda estamos na luta para conseguir doações. Meu material de divulgação nem está nas ruas”, rebate Newton Júnior. Ele conta que tem viajado por todo o estado. “Temos um retorno muito bom, porque o trabalho do meu pai é reconhecido em todos os cantos de Minas Gerais”.
O deputado estadual Dilzon Melo (PTB), que disputa a reeleição, afirma que na região sul do estado, onde mantém base eleitoral, a pressão é grande. “Como não trabalho dessa forma, o que faço quando alguém me procura é falar ‘olha, você merece até mais, mas não tenho condições de pagar’”. Na avaliação do deputado, na região existem candidatos que afirmam ter muito dinheiro, mas, na verdade, seria só uma forma de autovalorização. “Querem colocar um parâmetro, dizer que são fortes, mas nem sempre é verdade.”
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