Vittorio Medioli
O Tempo
Uma parcela
assombrosamente enorme do eleitorado se pronuncia a favor de anular o
voto ou deixá-lo em branco na cédula eletrônica, mesmo dando-se ao
trabalho de atender a obrigatoriedade de se apresentar para votar.
O fenômeno
espanta, ultrapassa qualquer outro momento da história do país. Não se
trata apenas de indecisão, de indiferença. Retrata a vontade, neste
momento, de reprovar as opções disponíveis. Isso fere diretamente a
“classe política”, macula o princípio de democracia que deveria garantir
ampla possibilidade de escolha. Nem um lado quanto menos outros se
mostram merecedores do esforço de digitar apenas dois números na urna
daqui a 60 dias.
A somatória de brancos e nulos ultrapassa a preferência da primeira
colocada, Dilma Rousseff, e, mesmo somando-se os votos do segundo
colocado, o “não voto” continua majoritário nas preferências da
população. Quer dizer que a maioria preferiria que o cargo não fosse
preenchido por ela nem por outro. Ainda estaria faltando o candidato que
se aproxima de suas aspirações.
Pesa
evidentemente nessa circunstância a desaprovação da atual presidente,
exatamente agora, depois de três anos e sete meses nos quais poderia ter
se preparado para chegar a este momento com as credenciais para uma
reeleição fácil.
MUITOS MOTIVOS
As contas públicas esgarçadas, a indústria em frangalhos, as exportações
minguando, a sombra da recessão e do desemprego colaboram para a má
vontade de manter o voto a favor de Dilma e do PT. O refluxo atinge os
candidatos ao governo do PT em todo o Brasil, e são poucos os Estados
nos quais o PT tem possibilidades reais de ganhar.
Em Minas, até então a mais provável vitória do PT registra, segundo o
Ibope, a perda de um terço dos eleitores, cerca de 13 pontos nos últimos
30 dias. Por sua vez, Pimenta avançou apenas 3 pontos, dentro da margem
de erro. Quer dizer que a migração se deu essencialmente para os
brancos e nulos.
Não votar é a forma desesperançada de protestar, pois, se não houver uma
opção “ideal” ou empolgante, o “menos pior”, pela lógica, deveria
merecer o esforço de digitar dois números na urna eletrônica.
O que está certo
agora é que o eleitor que desaprova o governo Dilma não pretende votar
nela, mas também não encontra razões para migrar para o lado oposto. Daí
se desencadeou um apelo dos candidatos contra o “não voto”. Até o
momento parece essa a proposta de maior conteúdo que deu para se ver num
cenário desesperançado.
Claro que, no deserto de propostas dos candidatos, o voto branco mostra
como a forma de governar e de fazer oposição, nos últimos anos,
decepciona o eleitor.
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