Publicado no Estadão
FERNANDO GABEIRA
Se em três meses de governo Dilma já
enfrenta uma crise de credibilidade, com vaias e panelaços, o que
imaginar para quatro anos de governo? Em outras palavras: é possível
perguntar pela saída num túnel tão longo e agitado?
Se fosse cirurgião político e a crise
fosse um corpo humano, minha proposta seria desconectar alguns nervos
que entrelaçam economia e política. Isso é quase impossível. Mas não
deixa de ser a tarefa correta. Se a crise política continuar
interferindo na frágil situação econômica, será mais longo o caminho da
retomada, todos sofreremos mais.
O cenário ideal seria aquele em que o
Congresso Nacional discutisse as medidas econômicas de manhã e, ao longo
do dia e da noite, quebrasse o pau em torno da política, sobretudo da
corrupção. Esse idealismo esbarra em obstáculos intransponíveis, como a
divergência entre quem manda no Congresso e quem manda no governo.
Na discussão econômica, não seriam
escamoteadas as questões políticas. Estamos cortando os gastos de forma
adequada? Quais são as correções necessárias no movimento da tesoura?
Quem apenas torce pela recuperação
econômica tem medo de que as teses do ministro da Fazenda, Joaquim Levy,
sejam contestadas e prefere não apontar correções. Mas elas podem
enriquecer o estreito caminho.
Os cortes terão de ser feitos por um
governo de esquerda, é o que temos no momento. Na Grécia, a esquerda
chegou ao poder com um projeto de rever o plano de austeridade. Aqui,
ela ainda precisa reverter a gastança. É uma etapa anterior, para a qual
está pouco preparada.
Mesmo se conseguirmos isolar,
parcialmente, a economia, é impossível acreditar que Dilma iria muito
longe. O desgaste cotidiano, acabará reduzindo seu horizonte.
A conjugação das crises política,
econômica e social é uma das mais sérias que conheci nos últimos anos.
Dilma acha que não, que estamos exagerando.
Ela afirma que o aumento no preço da
energia se deve à seca e omite seus equívocos. Ela diz que a Petrobrás
foi assaltada, mas não consegue vislumbrar, pelo menos no seu discurso,
como se produziu esse assalto.
Dilma não reconhece as mentiras da
campanha. E acredita que as pessoas vão esquecer-se delas com um pouco
de manipulação marqueteira.
O PT não reconhece o direito legítimo de
protestar contra o governo. Prefere atacar os que protestam: são ricos,
são da classe média, burgueses manipulados pela imprensa golpista
A tática da negação e do confronto
alimenta os protestos. É possível que alguém deles saiba disso. Saber
alguma coisa dentro do PT é extremamente perigoso. Seguir a cartilha é
mais seguro.
Nesse quadro, não vejo outro caminho a
não ser uma crise prolongada. Sem capacidade de autocrítica e
conciliação, Dilma marcha para uma rejeição mais ampla nas pesquisas.
A manifestação de domingo, com o tema
“Fora Dilma”, é uma tentativa de desatar um dos grandes nós da crise: a
incapacidade da presidente mais despreparada do período democrático para
liderar o processo mais difícil que o Brasil enfrentou nesses 30 anos.
Os teóricos do PT afirmam que a saída de
Dilma é um golpe, pois foi eleita para governar até 2018. Nem toda saída
é um golpe. Collor, com a ajuda do próprio PT, sofreu impeachment. No
período anterior à democratização, Jânio simplesmente renunciou.
Os tucanos rejeitam a tese do
impeachment. Não gostam de conflito. Nem os previstos na lei. Argumentam
que a sustentação política do governo sofreu um colapso. E mencionam
vagamente uma abertura para a sociedade.
Impeachment e renúncia são diferentes de
golpe. Intelectuais ligados ao governo têm falado de um ódio contra o
PT. De fato, os ânimos se exaltaram. Fala-se de um ódio contra o PT,
como se o partido fosse de anjos imaculados. Ninguém analisa o
comportamento dos seus quadros no governo ou tenta entender as causas da
rejeição.
Segundo alguns deles, o ódio dos ricos
existe porque os pobres consomem mais, vão às universidades e viajam de
avião. Em outras palavras, a razão do ódio é a nossa virtude solidária.
O máximo que conseguem é isto:
circunscrever o processo à oposição ricos e pobres. Se os ricos estão
protestando, os pobres deveriam celebrar.
As lentes da ideologia queimam muitos
neurônios. Eles supõem que os pobres são ressentidos e darão razão a
qualquer governo ao qual os ricos se oponham.
São incapazes de reconhecer a importância
do ajuste econômico e apresentar, dentro dele, um viés que realmente
atenue o impacto negativo nos setores menos favorecidos. Um programa de
cortes teria mais credibilidade se envolvesse alguns gastos do governo,
passando pela publicidade, pelas viagens irracionais, pela demissão em
massa dos companheiros agregados à máquina do Estado.
Dilma não tem condições de enfrentar a
crise. Os intelectuais perderam-se na defesa do governo, foram
atropelados, como tantos na História, pelo fascínio da chapa branca.
Não há dentro do PT a energia suficiente
para pensar uma saída. Apenas reflexos defensivos, baseados nos
instintos mais básicos da esquerda autoritária. Essa estrutura mental,
que projeta nos outros a causa do próprio fracasso, é um dos pontos que
me deixam pessimista em torno de um diálogo quando a crise for sentida
como insuportável.
O PT acredita que está sofrendo uma
conspiração dos ricos e da classe média. Mas poucos movimentos na
História fizeram tantos líderes ricos e elevaram tantos militantes à
classe média.
O problema do momento não é o choque de
ricos contra pobres. Gostaria de ver seu espanto quando descobrirem
isso. Ou, pelo menos, constatarem que existem milhões de ricos no
Brasil.
Domingo ainda não vai revelar tudo. Mas será uma espécie de passagem de ano, um réveillon político de 2015.
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