A ideia de um comício nasceu de Darci Ribeiro, então chefe da Casa Civil, ao presidente João Goulart. Levar a proposta das reformas de base ao povo, em diversas capitais, para terminar a Primeiro de Maio, em São Paulo. Seria uma forma de pressionar o Congresso a aprovar mudanças sociais, econômicas e políticas que sua maioria rejeitava.
No palácio Laranjeiras, o presidente passou a tarde em companhia do jornalista Antônio Callado, estrela principal do Correio da Manhã, que anotava suas observações. A principal delas, de que as reformas teriam que vir no voto, pois deputados e senadores não deixariam de influenciar-se pela voz das ruas. Mas, se fosse necessário, seu governo baixaria por decreto boa parte das propostas. Jamais cogitou de golpe, de fechamento do Congresso ou de criação da “República Sindicalista do Brasil”.
Pretendia seguir o exemplo de seu ídolo, Getúlio Vargas, deixando para a História realizações fundamentais para a classe trabalhadora, mas não repetiria 1937. Era, no entanto, o que espalhavam as elites rurais, econômicas e financeiras, temerosas das reformas agrária, bancária, urbana e educacional, em especial. Já havia promovido avanços essenciais, como a Central de Medicamentos, que emulava com os laboratórios privados, produzindo remédios a preços populares. Assinaria decreto desapropriando terras improdutivas instaladas à margem das rodovias e ferrovias federais e encampando as refinarias particulares.
COM A PRIMEIRA-DAMA
Jango apoiou outra sugestão de Darci Ribeiro, de comparecer ao comício acompanhado da mulher, Maria Teresa, de extrema beleza, como forma de tranquilizar os arautos do caos que não pretendia.
Discursaram líderes da esquerda, como Miguel Arraes, Leonel Brizola e José Serra, jovem presidente da União Nacional dos Estudantes. O palanque instalado diante da estátua do Duque de Caxias, era o mesmo utilizado por Getúlio Vargas em janeiro de 1951, quando falou ao povo depois de tomar posse no plenário da Câmara dos Deputados, no palácio Tiradentes.
Cada orador, inclusive os sindicalistas, de Osvaldo Pacheco a Hércules Correia, aumentava o tom da exigência das reformas, com linguagem obviamente socialista. O presidente, último a discursar, não podia ficar atrás. Elevou o diapasão pela importância de mudanças fundamentais. Foi o mais vibrante pronunciamento de sua longa carreira política, levando a multidão ao entusiasmo. Falou de reformas, não de revolução, como mais tarde apregoaram os que o depuseram.
MINISTROS APLAUDIRAM
O ministério compareceu, inclusive os três militares. Só faltou o embaixador Araujo Castro, das Relações Exteriores, apesar da proximidade do palácio Itamaraty. Nas janelas do palácio da Guerra, todo iluminado, alguns generais e muitos coronéis assistiam. Generalizou-se depois a versão de que todos manifestavam repúdio ao espetáculo encenado no asfalto, mas não foi verdade. A maioria aplaudiu, apesar de comentários críticos à presença de pelotões da Polícia do Exército encarregados do policiamento da área. Nenhum conflito se registrou.
Valem essas lembranças esparsas para quem, como repórter, apertava-se em meio à massa, apenas para registrar que o comício do dia 13, sexta-feira, foi um espetáculo democrático. Por causa dele, derrubou-se um presidente da República eleito pelo povo. A verdadeira causa da deposição estava na disposição de o governo adotar as reformas de base. Sem querer abrir mão de seus privilégios, as elites enganaram os militares, exceção dos que conspiravam e convenceram os camaradas de viver o país à beira do comunismo. Aliás, até hoje não abriram…
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