O advogado, jornalista, professor, memorialista, cronista, ensaísta e poeta pernambucano Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (1911-1984), no poema “Canção de Mulher e Tempo”, revela sua incessante busca cotidiana pela mulher amada, que se chamava Guiomar.
CANÇÃO DE MULHER E TEMPOMauro Mota
Guiomar, para onde foste?
Te procuro noite e dia:
Te procuro noite e dia:
sobejos de canto e falas
e o cheiro na ventania.
e o cheiro na ventania.
No verde morno do Janga
os rastros de espuma fria.
os rastros de espuma fria.
Bolem no azulejo as sombras
enxutas das mãos na pia
enxutas das mãos na pia
(Jeito de corpo estremece
no lençol que te cobria.)
no lençol que te cobria.)
Guiomar, para onde foste?
Te procuro noite e dia.
Te procuro noite e dia.
Só não te acho em ti mesma
no mistério da agonia:
no mistério da agonia:
sumidas cores e carnes
(camuflada autofagia).
(camuflada autofagia).
Tempo químico tirano,
vinte anos de tirania.
vinte anos de tirania.
Guiomar, para onde foste?
Só tua voz te anuncia.
Só tua voz te anuncia.
Nem a viagem nem a morte
mais longe te levaria.
mais longe te levaria.
O que vale é a incontaminada essência.
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