sábado, 23 de setembro de 2017

“Der Spiegel” considerava o CIEP o projeto mais importante do Terceiro Mundo

A revista alemã elogiou o programa dos CIEPs
Sergio Caldieri
Quando trabalhava na assessoria de imprensa de Darcy Ribeiro, na Secretaria Estadual de Cultura (de 1983 a 85), a mais importante revista alemã publicou uma página sobre os CIEPs, considerando o mais revolucionário projeto do Terceiro Mundo. Tirei uma cópia da página, postei ao cliping e entreguei a revista do Darcy.  Não guardei uma cópia, a revista nunca apareceu e nem existe nos arquivos da Fundação Darcy Ribeiro.
No último dia 25 de agosto de 2017, entrei na página da revista Der Spiegel, mandei um recado contando sobre  a matéria publicada e não tinha certeza do ano, em 1984 ou 85. Em menos de um mês, gentilmente Elif Guven, do atendimento ao leitor, mandou uma cópia das páginas 102 e 104, da Der Spiegel Nº 32/1985, publicada em 5 de agosto.
Eis a matéria sobre os CIEPs tão rejeitados pela imprensa do Rio de Janeiro:
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BRASIL – A síndrome de Calcutá
Escolas, jardins de infância e berços infantis como a linha de montagem – um enorme programa governamental é completar o programa educacional no Rio de Janeiro.
Oswaldo Luiz Machado está dormindo na rua. Um banco, uma casa, alguns jornais antigos do lixo podem ser suficientes para os 13 anos de idade. Alguns quarteirões no distrito de Catete, no Rio de Janeiro, são sua vida. Ele ganha cerca de 20 cruzeiros por mês para cuidar de carros estacionados. Os garçons nos restaurantes circundantes dão um alimento para comer.
Eles também foram os que atraíram o menino desabrigado para o novo edifício, que disparou no final de sua rua: elementos pré-fabricados de concreto elegantemente curvado, painéis amarelados brilhantes e grandes janelas em alumínio com o emblema inimitável do arquiteto de renome brasileiro Oscar Niemeyer.
Durante quatro semanas, Oswaldo foi um dos quase 600 alunos do primeiro “Centro de Escola Pública Integrada” (Ciep). Um dos conceitos escolares talvez mais revolucionários do Terceiro Mundo está escondido por trás do incômodo nome:
300 ESCOLAS – Em uma iniciativa  frontal à população, o estado do Rio de Janeiro, em três anos, está construindo 300 escolas para atender cada 1.000 alunos, com educação não só, mas também quatro refeições por dia, bem como cuidados médicos e dentários. Além de centenas de jardins de infância e berços infantis estão sendo lançados fora das correias transportadoras em uma “fábrica escolar” a uma taxa de uma unidade por dia como um todo – Num total de 2.000.
“Nós temos que passar pelo nó gordico”, disse o antropólogo Darcy Ribeiro, Secretário Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, que defendeu da oposição o programa “louco” da governo para evitar a  “Síndrome de Calcutá”, como o cientista chama o pântano de fome, sujeira e violência em que as grandes cidades dos países em desenvolvimento ameaçam afundar.
“As pessoas nascem na rua, passam toda a vida na selva de asfalto, e também no mar da casa”, reclama Ribeiro. “E, como resultado da racionalização na agricultura, mais e mais cidades estão chegando às cidades sem a menor chance de encontrar trabalho. A esperança de uma vida digna continua sendo uma ilusão “.
SUPERPOPULAÇÃO – De fato, o fornecimento de infraestrutura urbana na metrópole de sete milhões de habitantes do Rio de Janeiro é trinta vezes menor do que em Paris. E a desproporção aumenta. No ano 2000, a “cidade maravilhosa”, a maravilhosa cidade, acolherá 17 milhões de pessoas.
Acima de tudo, a educação escolar foi completamente negligenciada nas últimas décadas, em que aumentou a demanda, que foi simplesmente respondida com oferta reduzida. O dia escolar no Brasil leva apenas quatro horas e meia, de modo que dois turnos podem dividir as escassas salas de aula. Nas grandes cidades, é introduzida uma terceira turno, que limita o horário escolar diário a três horas.
“52 por cento das crianças deixam a escola antes da conclusão do segundo ano de educação, nem conseguem escrever e ler corretamente”, explica Ribeiro. Na cidade do Rio, faltam 700 mil vagas escolares estão faltando, em todo o Estado faltam 1,5 milhão. Há apenas 586.987 estudantes inscritos em 1984 no estado do Rio de Janeiro, em 2.350 escolas.
REINVENTANDO – “Não estamos fazendo nada de revolucionário aqui”, diz  Darcy Ribeiro, “estamos apenas reinventando a escola convencional”.
É assim que o programa Ciep fornece lições o dia inteiro. As crianças passam nove horas no complexo, que está equipado com uma biblioteca e um campo de esportes. Da primeira unidade, aberta há um mês em Catete, as crianças ficam emocionadas: “É divertido, é fantástico”.
Há, naturalmente, muitas crianças que viviam dos gêneros alimentícios das latas de lixo dos restaurantes. Aqui você pode encontrar arroz, feijão, omeletes, frutas ou leite em chapas de aço brilhante em cromo na moderna cantina.
As aulas são relaxadas por apresentações de teatro, pintura e esportes. E depois da ginástica tomam banhos – para muitas dessas crianças da favela, algo raro. “Há aqueles que nunca tiveram a chance de jantar, alfabetização e higiene”, diz Teresa Graupner, da Secretaria de Cultura.
E FUNCIONA… – A coisa maravilhosa sobre todo o programa é que o sistema funciona – pelo menos até agora. “Não é tão caro”, diz Darcy Ribeiro, “embora usemos a maioria dos recursos do Estado para fazê-lo.
De fato, o governo anterior gastou 80% de seu orçamento em investimentos em áreas de construção urbana, ou em esplendor onde lindas praias brancas e amplas avenidas eram um apartamento de luxo incomparável.
“Maravilhosa” é a cidade do Rio somente naquela borda sul estreita ao longo das praias que os turistas conhecem. Os milhões de miseráveis estão escondidos atrás das montanhas.
VALE O CUSTO – Uma escola CIEP custa menos de quatro bilhões de cruzeiros (dois milhões de marcos). “O Cruzeiro não é estável”, conclui Ribeiro, “mas eu estimo que a próxima expansão de 100 escolas custará cerca de 100 milhões de dólares”.
“São edifícios faraônicos”, critica o jornal “O Estado de São Paulo”. Mas a oposição é surpreendida pelo programa cuidadosamente preparado e pelo planejamento financeiro preciso e teme a crescente popularidade dos reformadores.
O menino Oswaldo Luiz Machado ainda está dormindo em casa, ainda cuidando de carros, mas agora apenas à noite, com um estômago cheio e um banho limpo. Em breve, ele espera, esta vida também será uma coisa do passado: no sótão do centro escolar, dois apartamentos são organizados para doze crianças cada. Oswaldo quer ser aceito para morar lá.

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