Vittorio Medioli
Segundo as religiões orientais e os ensinamentos encobertos pelo véu do “ocultismo”, quanto menos evoluída uma personalidade, mais necessidade tem de se identificar com um grupo, pois sozinha teria dificuldades em suas escolhas. Assim, prefere seguir o que a maioria do grupo identifica como a solução melhor.
Claro que a escolha do grupo resulta “aproximada” e frequentemente limitada para o indivíduo, assim como seria um sapato de tamanho 40 que será calçado indiscriminadamente por quem usa medida 38 ou 43. Um terá o pé guardado com grande folga e arrastará o calçado, enquanto o outro conseguirá abrigar apenas a extremidade dos dedos. Entretanto, tanto um como outro evitarão se cortar em pedras agudas, e, com certeza, grande parcela dessa comunidade encontrará nesse calçado “escolhido pela vontade do conjunto” algo de útil para avançar.
ESCOLHA COLETIVA
A escolha coletiva, mais que por um raciocínio, é determinada por um “convencimento” coletivo, já que a massa não tem cérebro e não raciocina, essencialmente tem capacidade de reação e de escolha pela média que sai do vulcão da maioria. Consideremos que, em uma massa formada por uma maioria pouco esclarecida, movida por necessidades primordiais que ainda a atormentam, a decisão será tendencialmente inocente, mas tal não aparecerá de imediato, só depois de as consequências se exacerbarem sobre a massa.
Quem possui uma consciência mais evoluída acaba se destacando da massa saponácea como uma bolha que consegue subir inflada por vontade própria e crítica. O evoluído manterá amor para com seus semelhantes, mas, enxergando os mecanismos que regem a comunidade, já passa a usar um sapato dotado de cadarços e fivelas que permitem uma acomodação mais apropriada. Usa de paciência e, quando bem-intencionado, adota uma postura de benévola compaixão, de missionário, de fazedor de harmonias e de ajudante invisível.
Tentando mapear os canais por onde flui a vontade popular, precisamos lembrar que na grande maioria os homens são educados e acabam se identificando com certas multidões psicológicas nas quais nasceram, militaram, aprenderam a se identificar. Isto é: com grupos de pessoas que pensam e, em especial, sentem de maneira similar.
Tais multidões estão nas famílias, nas tribos, nos clãs, nas escolas e nos grupos de estudo, nas profissões, nas seitas religiosas, nos partidos, nas escolas de pensamento, nas raças, nos povos da mesma nacionalidade. Até se aglutinam entre as pessoas que preferem um jornal a outro e acabam formando uma “multidão” psicológica que se identifica num conteúdo compartilhado numa mesma vibração que emana normalmente do autor e se completa com os intervencionistas.
PELO FACEBOOK
Hoje o Facebook possibilita o surgimento de comunidades temáticas que aceleram o agrupamento ideológico anteriormente elitizado e demorado. Quem gosta de Leonardo de Caprio, ou de fusquinha, ou do filósofo Theillard de Chardin, passa a ter opções de compartilhar o interesse e a paixão sem sair de casa. Isso obviamente cria uma nova atmosfera, estimula e estimulará a ampliação do conhecimento como já se nota, formando comunidades mais afortunadas.
As multidões, a massa, entretanto, restam dominadas pelos sentimentos e pelas emoções que dificultam decisões mais sábias e se expandem como uma onda elétrica quase instantânea perdendo o indivíduo o poder de pensar e sentir individualmente. Transforma-se num torcedor que almeja apenas o resultado. As reações refletem normalmente a figura de um líder – farol da multidão hipnotizada, quase sempre explorador contumaz dessa mesma multidão da qual cobra dízimos de várias espécies.
As incongruências do líder – formulador do pensamento – obrigam a comunidade a sofrer derrotas e erros, ao assumi-los para si, a justificá-los inconsequentemente, até porque fazem parte do dízimo não só material, mas moral e psicológico.
Os maiores erros da história se devem a massas subjugadas por emoções que perduraram até o som da flauta de Hamelin emitir seus eflúvios mágicos e levá-las a se afundarem “felizes” em águas profundas.
O encantamento da flauta, todavia, tem um tempo certo, nunca é eterno, e cessando deixa a massa em marcha a se perguntar como, por tanto tempo, achou aquele som que incomoda fascinante e avassalador.
Muitos líderes mais recentemente vêm experimentando o fenômeno da perda desse encantamento que parecia eterno enquanto durou. Continuam tocando a flauta e não se apercebem do expirar do prazo, que em breve estará apenas incomodando. O tempo deles parece que se esgotou.(Tribuna Da Imprensa )
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