sábado, 27 de abril de 2013

Omeletes com canja de galinha


Carlos Chagas
No ano de 1453 Constantinopla era um caos  para ninguém  botar defeito. Candentes discussões entre seus habitantes  entremeavam-se com  verdadeiras batalhas campais. Metade da população sustentava que Deus havia criado primeiro o ovo. A outra metade defendia a galinha. Ninguém cuidava de outra coisa.
Foi quando os turcos, há tempos sitiando a capital do Império do Oriente, cavaram túneis sob as antes  inexpugnáveis muralhas, invadiram, passaram boa parte dos homens  pela espada,  escravizaram mulheres e crianças  e Constantinopla, até hoje, passou a chamar-se Istambul…
Assim estão o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Discutindo a origem das penosas em plena Praça dos Três Poderes. Oferecem  ao país um espetáculo que seria cômico se não fosse trágico. Legislativo e Judiciário batem cabeça em torno da preservação de suas atribuições constitucionais. Agridem-se. Buscam uns atingir as prerrogativas dos  outros, numa tertúlia que já atropelou as instituições democráticas.
Enquanto isso, os turcos estão chegando, ou melhor, já chegaram. Instalados no palácio do Planalto,  vão cavando túneis na credibilidade dos dois contendores. Quando menos esperarem, Congresso e Supremo Tribunal Federal perceberão que junto com a   independência e a  harmonia perdidas, entregaram o poder ao Executivo especializado em deglutir omeletes com canja de galinha.
O MUNDO CONTRA ELE
Aécio Neves  sugeriu mas ainda não apresentou  a emenda constitucional que acaba com o princípio da reeleição. Se deseja chegar ao palácio do Planalto, é bom que deixe a proposta morrer, não porque pareça justa, necessária e ética, mas porque não haverá um prefeito, um governador e um presidente da República em condições de defendê-la.  Sofrerá derrota monumental por turvar planos imediatos, de médio e até de longo alcance.
Não há um detentor de mandato executivo que pense em abrir mão da prerrogativa de permanecer no poder por mais um mandato. Ainda mais sem precisar desincompatibilizar-se. Os que já se encontram no segundo mandato, tendo sido reeleitos, estão de olho no futuro. Os que já completaram a dupla jornada aguardam apenas o interregno para tentarem retornar.
Tome-se o Lula.  Por coerência, reconheceu o direito de Dilma disputar a reeleição. Mas depois, em 2018, quem será que o companheiro imagina   candidato, não para um, mas para dois mandatos?  Olhando-se no espelho, ele tem a resposta.
A reeleição inseriu-se em nossa cultura política mais ou menos como um micróbio para o qual inexistem antibióticos.  Desde que Fernando Henrique arrancou do Congresso  a emenda constitucional da reeleição sumiram os candidatos a um único  mandato. Não se encontrará um só  para remédio. Ou o próprio Aécio não governou Minas por oito anos?
POR FALAR EM HABEAS CORPUS
Floriano Peixoto desdobrava-se para consolidar  a  República, enfrentando a Revolta da Armada, no Rio, e  a Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul. Em meio a profunda ebulição política, mandou prender alguns deputados suspeitos de ligações com os rebeldes. Junto ao Supremo Tribunal Federal, Rui Barbosa impetrou habeas-corpus em favor deles. Um ministro do marechal-presidente indagou dele o que faria se o Supremo concedesse o recurso. Resposta: “e quem dará habeas-corpus ao Supremo?”
Coincidência ou não, a mais alta corte nacional de justiça decidiu não conhecer do habeas-corpus  e os deputados foram parar em Cucuí, na Amazônia. Floriano ainda fez mais: nomeou o médico Barata Ribeiro  para o Supremo…( Tribuna da Imprensa )

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