
Daniel Barros
Exame
A verdade é que a economia não deslancha e o governo não terá muita margem para agir em 2014. Como a prioridade absoluta é vencer as eleições, o corte de gastos não é algo a ser esperado. O aumento de carga tributária, outro tipo de solução, seria um suicídio político. “Mas o governo vai tapar alguns buracos em 2014 para levar a situação e evitar o pior”, diz o economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria.
Entre as medidas possíveis está a diminuição dos repasses feitos aos bancos públicos, uma das marcas dos últimos anos, especialmente as transferências bilionárias feitas ao Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social para alimentar a concessão de empréstimos a juros subsidiados, na malbaratada política de formação de “campeões nacionais” – 300 bilhões de reais foram transferidos ao BNDES desde 2009.
DESONERAÇÕES
No campo das desonerações, possivelmente o imposto sobre produtos industrializados dos automóveis será recomposto. Até mesmo quem se beneficiou do incentivo avalia seu resultado como limitado.
“Os efeitos das desonerações não são imediatos, e o crescimento de um pais, assim como o de uma empresa, está ligado a uma diversidade de fatores, não apenas a um ponto especifico” , diz François Dossa, presidente da montadora Nissan no Brasil. O ministro Mantega também tem prometido fazer uma blitz nos critérios de quem recebe seguro-desemprego – estranhamente, o pagamento do benefício aumentou, embora a taxa de desemprego se mantenha baixa, e impactou o resultado ruim de setembro.
Em 2015, tudo mudará – ou pelo menos deveria mudar. O primeiro ano de mandato é, tradicionalmente, o momento mais propício para um governo fazer reformas. 0 apoio popular e a boa vontade do Legislativo ajudam. No México, o governo do presidente Peña Nieto tenta avançar com uma reforma tributária e outra energética ainda em seu primeiro ano de mandato. E possível esperar reformas profundas no Brasil? Difícil dizer ainda a um ano da eleição.
É certo que a Previdência Social, por exemplo, precisa de ajustes urgentemente. Os aumentos reais do salário Mínimo nos últimos anos tiveram forte repercussão em suas contas. “Não há como fugir”, diz Fabio Giambiagi, economista do BNDES e especialista na questão previdenciária. “Se esse tema não for encampado pelo próximo presidente, a tendência é que o Congresso renove a regra de aumentos do salário-mínimo. que tem custado muito caro.”
Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, aposta que, se a regra for renovada, o próximo governo encerrará o mandato gastando 8,5% do PIB com a Previdência – neste ano, deve fechar em 7,4%. “Ajuste fiscal nunca é gostoso”", diz Schwartsman. “Mas, se não for feito no começo do governo, não dá mais para fazer.”
Idealmente, o início do próximo mandato seria também o momento de retomar uma ideia do ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, de limitar o crescimento do gasto público a um teto, vinculado ao crescimento do PIB.
PENTE-FINO
“O próximo governo precisará passar um pente-fino no gasto para buscar maior eficiência”, diz o economista Otaviano Canuto. conselheiro do Banco Mundial para os Brics, sigla que se refere a Brasil, Rússia. índia. China e África do Sul. “A tarefa é fundamental para fazer um ajuste fiscal sem prejudicar o funcionamento do setor público.” Pelo lado da receita, muitos economistas, pragmaticamente, apostam um aumento da carga tributária.
“Uma saída é um pequeno aumento de impostos para garantir o superávit primário em 2015 enquanto o governo prepara uma redução mais horizontal para 2016″, diz André Loes, do HSBC. “Com isso, seria possível abrir espaço para crescer mais nos anos seguintes.” O raciocínio é que, com recuperação da credibilidade perdida pelo governo, o ânimo com o país voltaria.
A taxa de investimento, que é básica para crescer, sairia da estagnação – nos últimos cinco anos ela variou de 18% a 19% do PIB. O tempo está se esgotando para que a presidente Dilma melhore a herança que vai transmitir – para ela mesma ou para um de seus concorrentes – e resgate a economia brasileira de uma fase de mediocridade. (artigo enviado por Mário Assis)
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