terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Pedalando contra Molière por um mundo melhor





Sandra Starling

Não gostaria de me estender sobre a novela do mensalão. Há tanta hipocrisia envolvida em tudo isso que, confesso, me sinto cansada de continuar tratando desse assunto. O poder econômico ainda haverá de dar as cartas na política brasileira por um bom tempo. Está tudo dominado!
Sou tomada de assalto pela vontade de inteirar-me um pouco mais sobre crises internacionais a que devotamos um nível de preocupação próprio das banalidades. Qual o compromisso de cada um de nós com a superação da devastação causada pelo tufão Hayan nas Filipinas? O que temos a oferecer para que o caos deixe de imperar na Síria, na Líbia ou no Egito? Iraque e Afeganistão já são sinônimos do Éden? E o Haiti, safou-se?
O que fazer para que o chifre da África não continue tragado pela anarquia e para que os que dali escapam não morram afogados nas proximidades de Lampedusa, nas barbas dos indiferentes europeus? É aceitável, como nos adverte Paulo Nogueira Batista Júnior, que uma geração inteira de jovens portugueses, gregos e espanhóis passe pela vida sem saber o que é ocupação? Até quando continuaremos a comprar roupas de grife fabricadas em Bangladesh ou Camboja, mediante trabalho em condições degradantes?
VIOLÊNCIA
Enquanto isso, entre nós, no Brasil, os indicadores de violência aumentam. Homicídios, estupros, arrastões, assaltos às escancaras. Pode escolher, caro leitor. Somos marcados pelo selo da agressão em tudo que fazemos: na família, na escola, no trabalho, nos esportes, nas prisões, na política. E o velho mito de nossa cordialidade, relatado por Sérgio Buarque de Hollanda, acaba se revelando em seu exato sentido nos precisos versos de seu famoso filho, na parceria com Ruy Guerra: “Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar/Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”.
Assisti há poucos dias ao filme “Pedalando com Molière”. Trata-se da tentativa de sedução de um famoso ator, que se tornara praticamente um ermitão, para participar de uma das mais complexas peças do dramaturgo francês: “O Misantropo”. Obra teatral e filme se confundem num belo lamento sobre o pessimismo, quase um réquiem sobre nossa decaída condição humana. Cheguei a pensar: é… não tem jeito mesmo!
E O QUE VOCÊ FEZ?
Mas novamente vai chegando o Advento. E volta-me à mente a pergunta de John Lennon em “Merry Christmas”: “Um ano se passou. E o que você fez?”. Sei que pouco ou nada fiz. Mas me arrebata o exemplo dos que fizeram.
Curiosa, ante a notícia de uma revista, vou ao YouTube para apreciar o sucesso de Nerckie, o professor de matemática que vem cativando milhares de jovens, com sua obsessão de inclusão social pela educação. Aulas de excelente qualidade sem cobrar um tostão em troca. O que ele nos pede como compensação? Que saiamos de nossos casulos, esqueçamos a preocupação permanente com o dinheiro e nos doemos um pouco, no pouco que pudermos, para quem precisa. Sua mensagem soa como pedalar, contra Molière, em prol de um mundo melhor, mais humano e em maior sintonia com a natureza.
 
 

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