Santiago Andrade, descrito por todos como um homem de bem, ficou até o fim com a câmera
Santiago e a filha Vanessa no dia do casamento: ‘Sei que ele está bem. Eu sou a continuação da vida dele’
Foto: Álbum de família
“Fazia tudo com muito carinho, tanto
que, mesmo caindo, ele foi segurando a câmera”, lembrou Arlita Andrade,
viúva do cinegrafista, à Rede Globo. Ela disse que ele já fazia planos
para a aposentadoria, em breve. Santiago, muito querido no meio
jornalístico, era casado há 30 anos e criou uma filha e três enteados.
Desde a notícia da explosão, a
família se uniu a amigos numa corrente de fé e solidariedade. Pelas
redes sociais, a filha, Vanessa Andrade, mobilizou centenas de pessoas
para fazerem orações e doações de sangue. Os pedidos foram prontamente
atendidos. Na porta do hospital, colegas se revezavam em buscas de
notícias e torcendo pela recuperação.
Quando soube que o inevitável aconteceria,
Vanessa buscou o colo do pai — de quem seguiu os passos e também se
tornou jornalista — para uma despedida emocionada, no domingo. “Éramos
só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter”,
escreveu Vanessa numa carta emocionante (leia na íntegra ao fim da
matéria). Pouco antes de perder o companheiro de uma vida inteira, Arlita encontrou forças para fazer um apelo: “O que falta é amor pelo ser humano. Peço que essas pessoas não sejam violentas, que não façam isso. Isso não vai levar a nada. Eles destruíram uma família que era muito unida.”
O tempo de carreira deu a Santiago a serenidade e o profissionalismo necessários para enfrentar os desafios, que foram muitos. Enchentes, manifestações, operações policiais, Carnaval, apenas para citar alguns exemplos do trabalho incansável do repórter cinematográfico.
Sempre sorridente, brincalhão e
disposto a ajudar os outros, Santiago fez uma legião de amigos, tão
leais quanto as lágrimas de emoção que eles derramaram ao se despedir do
cinegrafista ontem. “Uma das pessoas mais fáceis de se gostar, grande
companheiro nas dificuldades. O mais cuidadoso cinegrafista que conheci
acabou sendo pego dessa forma. Agora que não terei mais sua amizade, que
ao lado de Deus olhe para a gente aqui embaixo”, disse o repórter
Alexandre Tortoriello, premiado junto com Santiago.
Repórter Alexandre Tortoriello, sobre Santiago: ‘Grande companheiro’
Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
“Não vai ser fácil esquecer os
momentos de otimismo dele, quando eu me deixava abater pelas
dificuldades. Esse era o velho ‘Santi’. Preocupado com todos e sempre
humilde. É o segundo amigo que perco nessa guerra urbana não declarada.
Basta. Não quero mais derramar lágrimas por causa da estupidez humana”,
afirmou o repórter da TV Justiça Adeilton ‘Che’ Oliveira.
“Estava com dores na coluna, mas dizia: ‘Deus
me livre ficar na cama, prefiro trabalhar’”, lembrou o cinegrafista
Sérgio Colonese. A família doou os órgãos, atendendo a um pedido do
cinegrafista. Ele será cremado no Rio, após o velório, hoje. Ontem, uma
missa na Igreja Santa Cecília, em Botafogo, homenageou Santiago.
Especialista defende comercialização licenciada
A quatro meses da realização da Copa
do Mundo no Brasil, o uso clandestino de fogos de artifício representa
perigo dentro de estádios e nas manifestações pelo país. Apesar de ser
uma prática proibida, membros de torcidas organizadas driblam a
fiscalização e levam as bombas e rojões para dentro dos estádios, e
grupos de ação violenta passaram a usar os artefatos explosivos como
armas nos protestos em praças públicas.
Colegas fizeram ato em memória de Santiago
Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia
O vice-presidente da Associação
Brasileira de Pirotecnia, Anderson Queiroz, defendeu a comercialização
licenciada. “A proibição tem que ser apenas pelo mau uso. Fogos são para
momentos de alegria, comemoração. Não é porque uma pessoa usou de forma
criminosa que deve ser proibido", afirmou. Anderson também ressaltou a
importância do respeito às normas de segurança. "Quem quer soltar fogos
deve comprar produto de qualidade em uma loja licenciada”.
Novo protesto reúne 500 pessoas no Centro
Um novo protesto contra o aumento das
tarifas de ônibus mobilizou ontem à tarde, no Centro, cerca de 500
pessoas, segundo a PM. Durante duas horas, manifestantes caminharam por
avenidas da região, gritando palavras de ordem. Dezenas de mascarados
foram vistos em meio à multidão, e quatro foram detidos porque se
recusaram a tirar as máscaras.
Pouco antes das 21h, houve um
princípio de tumulto entre PMs e ativistas, que tentaram impedir que os
detidos fossem levados para a delegacia. Pelo menos 200 policiais
cercaram os principais prédios públicos e acompanharam a passeata.
Ativistas protestaram contra o aumento das passagens de ônibus. Batman das manifestações fez homenagem a cinegrafista
Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia
Os manifestantes saíram da Candelária
por volta das 18h e seguiram em direção à Central do Brasil, onde se
uniram a outro grupo, reunidos em frente ao Comando Militar do Leste,
local onde o repórter cinematográfico da Band foi atingido por um rojão
na manifestação da última quinta-feira.
Em dois momentos, os manifestantes pararam para
protestar: em frente à Assembleia Legislativa (Alerj) e na porta da
Fetranspor, onde reivindicaram mudanças no preço das tarifas. O protesto
foi marcado pelo Movimento Passe Livre (MPL). Portando faixas,
bandeiras e gritando palavras de ordem, os ativistas ocuparam a
escadaria da Câmara de Vereadores. Policiais revistaram algumas pessoas.
A Av. Rio Branco foi fechada pelos ativistas na altura da Presidente
Vargas. A via foi liberada 40 minutos depois. Antes, a Presidente Vargas
ficou com trânsito em meia pista.
Jornalistas fizeram ato em memória de Santiago
Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia
Antes do protesto, cerca de 60
jornalistas fizeram ato em memória a Santiago. Entre os presentes,
estavam principalmente cinegrafistas e fotógrafos, que deixaram câmeras
no chão como forma de repúdio à morte do colega e posaram para uma foto
coletiva. Agências e TVs internacionais acompanharam o protesto. Logo
depois, eles aplaudiram o cinegrafista. Em Brasília, outros
profissionais também repetiram o ato.
Dilma demonstra revolta com o caso no Twitter
Após determinar que a Polícia Federal entre no caso, a presidenta Dilma Rousseff mostrou, no Twitter, revolta e tristeza com o episódio. Ela defendeu a liberdade de manifestação, mas declarou que esta nunca pode ser usada para ‘matar, ferir e ameaçar vidas humanas’.
“Não é admissível que os protestos democráticos sejam desvirtuados por quem não tem respeito por vidas humanas”, disse a presidenta.
Santiago Andrade foi atacado durante manifestação na última quinta-feira
Foto: Reprodução Internet
Em comunicados à imprensa, o
governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes lamentaram a tragédia
e condenaram o uso da violência nas ruas. O caso também repercutiu na
imprensa internacional. O site do ‘The Wall Street Journal’, dos EUA,
indicou que a morte do cinegrafista traz preocupações com relação à
segurança durante a Copa do Mundo, em junho.
O site da rede de TV britânica BBC lembrou que o
crime ocorreu após manifestação pacífica contra o aumento da passagem
de ônibus, encerrada em confronto violento. A matéria recorda que os
protestos no ano passado se transformaram em ‘movimento contra a
corrupção e os gastos excessivos com a Copa’.Entidades lamentam a tragédia
Entidades ligadas à imprensa, como a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio enviaram notas às redações, lamentando a morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade.
Um levantamento da Abraji revelou 117 agressões, prisões indevidas e ameaças a jornalistas no país desde que começaram os protestos de rua, há oito meses. Na maioria dos casos, os relatos ocorreram após a identificação das vítimas como jornalistas.
“É uma tentativa de intimidar o trabalho dos jornalistas; de impedir que cumpram a sua função de passar o que estão vendo à sociedade. Isso é uma ameaça à liberdade de expressão. E uma ameaça à democracia”, criticou José Roberto de Toledo, presidente da Abraji.
A antropóloga Alba Zaluar criticou a ação dos manifestantes. “Foi uma tragédia construída em cima da tolice, da infantilidade de alguns e da irresponsabilidade dos profetas do ódio, do conflito violento e da guerra”, disse. Já Ivana Bentes, professora da Escola de Comunicação da UFRJ, minimiza a responsabilidade dos manifestantes no episódio e dispara contra a polícia. “Os maiores ataques são por parte da polícia. Não tem violência enquanto a polícia não chega”, diz.
Carta de Vanessa, filha de Santiago Andrade, publicada no Facebook
"Meu nome é Vanessa Andrade, tenho 29 anos e acabo de perder meu pai. Quando decidi ser jornalista, aos 16, ele quase caiu duro. Disse que era profissão ingrata, salário baixo e muita ralação. Mas eu expliquei: ‘Vou usar seu sobrenome.’ Ele riu e disse: ‘Então pode!’ Quando fiz minha primeira tatuagem, aos 15, achei que ele ia surtar. Mas ele olhou e disse: ‘Caramba, filha. Quero fazer também.’ E me deu de presente meu nome no antebraço. Quando casei, ele ficou tão bêbado, que na hora de eu me despedir pra seguir em lua de mel, ele vomitava e me abraçava ao mesmo tempo.
Me ensinou muitos valores. A gente que vem de família humilde precisa provar duas vezes a que veio. Me deixou a vida toda em escola pública porque preferiu trabalhar mais para me pagar a faculdade. Ali o sonho dele se realizava. E o meu começava. Esta noite eu passei no hospital me despedindo. Só eu e ele. Deitada em seu ombro, tivemos tempo de conversar sobre muitos assuntos, pedi perdão pelas minhas falhas e prometi seguir de cabeça erguida e cuidar da minha mãe e meus avós. Ele estava quentinho e sereno. Éramos só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter.
E ele também se despediu.
Sei que ele está bem. Claro que está. E eu sou a continuação da vida dele. Um dia meus futuros filhos saberão quem foi Santiago Andrade, o avô deles. Mas eu, somente eu, saberei o orgulho de ter o nome dele na minha identidade. Obrigada, meu Deus. Porque tive a chance de amar e ser amada. Tive todas as alegrias e tristezas de pai e filha. Eu tive um pai. E ele teve uma filha.
Obrigada a todos. Ele também agradece.
Eu sou Vanessa Andrade, tenho 29 anos e os anjinhos do céu acabam de ganhar um pai".
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