
Dione Kuhn
Zero Hora
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O arquiteto João Otávio, 61 anos, é o único filho de Leonel
Brizola que sempre fugiu dos holofotes e da imprensa. Ao contrário de
seus dois irmãos, José Vicente — o mais velho, morto em 2013 — e
Neuzinha — a mais nova, morta em 2011 —, nunca brigou ou desafiou
publicamente o pai. Era o filho com quem Brizola, nos últimos anos de
vida, vinha conversando, reavaliando decisões políticas, como se
estivesse fazendo um inventário de sua trajetória pública e privada.
Brizola foi
prefeito de Porto Alegre, deputado e governador do Rio Grande do Sul e
do Rio de Janeiro. Morreu há 10 anos, em 21 de junho de 2004, aos 82
anos, vítima de infarto. Por ser testemunha privilegiada de momentos
cruciais da vida do pai, João Otávio decidiu escrever um livro de
memórias — ainda sem editor (confira um trecho abaixo).
Pai de João
Eduardo, João Otávio vive hoje entre o Rio de Janeiro e o Uruguai, onde
administra a fazenda que era da família e uma academia de ginástica. É
incentivador da carreira política dos sobrinhos, a deputada estadual
gaúcha Juliana Brizola, o vereador do Rio Leonel Brizola Neto e o
ex-ministro Carlos Daudt Brizola (conhecido por Brizola Neto). Os três
são filhos de José Vicente.
Por que escrever um livro sobre seu pai?
Eu tinha uma
história para contar. Não tem mais muitas testemunhas vivas para falar
de todos os períodos da vida de meu pai. Minha mãe e meus irmãos (José
Vicente e Neuzinha) já morreram. Resolvi contar do ponto de vista da
nossa relação.
Ser filho de Brizola ajudou ou atrapalhou?
As duas coisas.
Ajudou no crescimento profissional. Soube aproveitar as oportunidades
que me foram dadas. Mas tem um legado desagradável de ser filho de um
político de esquerda, particularmente dele. Tudo o que se fala e se
falou de Brizola é política pesada. É política a ferro e fogo. Ou amavam
ou detestavam ele. Era assim no Rio e no Rio Grande do Sul. Ainda que
no Rio Grande do Sul ele tenha se transformado em figura histórica
respeitada já anos antes de morrer. O que não acontecia no Rio. O legado
negativo é toda a falta de ter um pai, a dificuldade de relacionamento,
associada a cobranças e ameaças para que fôssemos perfeitos.
Como eram essas cobranças e ameaças?
Meu pai e minha
mãe (Neusa Goulart Brizola) eram pessoas muito diferentes e, ao mesmo
tempo, muito iguais. Eles se amavam muito, mas cada um tinha seu gênio.
Ela vinha de uma família rica, sempre teve tudo que quis. Quando tinha
22, 23 anos, o pai dela morreu. Minha mãe teve de assumir os negócios da
família junto com meu tio Jango (João Goulart, ex-presidente da
República). Era uma moça bonita, elegante, inteligente e rica. Meu pai
veio de família pobre, se formou à custa de muito trabalho e se fez
sozinho. O casamento tinha amor, mas também teve muita conveniência
política. Ela tinha surtos de poder e ele querendo conter isso. Ela
estava acostumada a ter empregados. Na fazenda, eram mais de 20 famílias
que viviam ali pela comida, coisas do período da escravidão. A família
Goulart era vizinha de Getúlio Vargas. Tudo isso proporcionou um mundo
de prosperidade e de poder para minha mãe e para o tio Jango. Por isso
minha família tinha contradições muito grandes.
Que contradições?
Minha mãe queria
uma coisa e meu pai queria que a gente parecesse outra. Quando pequenos,
morávamos na Rua Tobias da Silva (no bairro Moinhos de Vento). Toda a
família da minha mãe frequentava o Leopoldina Juvenil. Mas nós tínhamos
de ir para o Grêmio Náutico União porque era mais popular. Quando o pai
virou governador, foi ainda pior. Ele só queria que fôssemos num clube
ainda mais popular, o Grêmio Náutico Gaúcho. Lembro que teve uma
competição de natação de 50 metros. Fui participar todo animado. Só
tinha um na raia, geralmente se colocavam uns cinco ou seis na raia.
Esse único que competia parou na metade da prova para deixar eu ganhar. A
mãe se deu conta e ficou furiosa. Ela disse “vocês nunca mais pisam
aqui”. Tudo porque tínhamos de fazer a imagem. Todos da família da minha
mãe eram gremistas históricos. Nós tínhamos de ser colorados para
parecer mais populares. E todas essas contradições apareceram mais
tarde, criando problemas para mim e para os meus irmãos.
Que tipo de problemas?
De se rebelar
contra ele. Eu, talvez, tenha tido um destino diferente dos meus irmãos
por causa de minha madrinha, a dona Mila Cauduro, que me influenciou
muito. Já o José Vicente e a Neuzinha se rebelaram muito contra o pai.
Esse foi o lado ruim. O pai sempre dizia que tínhamos de lutar para
conseguir as coisas, porque ele lutou, mas não se dava conta de que
morávamos num palácio. Era outra realidade. E a minha mãe lutando contra
isso, contra esse lado forte dele. Era difícil.
E o lado bom dos pais?
Sem dúvida que houve. Minha mãe era muito carinhosa. Ele também sabia ser quando queria.
Brizola se dedicava aos filhos?
Muito pouco.
Quando morávamos em Porto Alegre, geralmente os domingos eram dedicados à
família. A imagem que ficou é do pai e da mãe discutindo, e era muito
desagradável. Ele adorava acampar no alto do Morro da Polícia. Uma vez,
quando era prefeito da cidade, parou numa estrada que cruzava por
Gravataí ou Viamão, não lembro bem. Parou na esquina e montou
acampamento, fez fogo. Passamos a noite numa barraca. (risos) Meu pai
era um homem do campo. E a minha mãe era a dona do campo. Essa é a
história.
Eles brigavam muito?
Muito, tinham
fúrias. Principalmente depois que fomos para o exílio. Ali os problemas
afloraram. Eles não se davam conta, mas em Porto Alegre a gente estudava
num colégio de primeira, o Farroupilha. Chegamos a Montevidéu e fomos
para um de terceira categoria. De repente, estávamos num colégio onde as
pessoas até roubavam dos outros. Não sabíamos direito o que estava
acontecendo. Foi um choque. Não tínhamos documentação, então tivemos de
ir para onde nos aceitavam. Como escrevo em meu livro, passamos de
principal família dirigente de um país para bandidos fugindo da lei. Já
meus primos, filhos do Jango, foram para um colégio americano. Acho que
toda a natureza das histórias de contradição vem daí. Pensando bem,
minha mãe casou com meu pai para fazer frente ao Jango. Já Jango casou
com a Maria Thereza para fazer frente à família dele. Maria Thereza não
era a pessoa que os Goulart queriam. Ela mesma dizia que caiu de
paraquedas. Vai entender.
Ao contrário de José Vicente e Neuzinha, você sempre fugiu dos holofotes. Por quê?
A Neuza Maria
sempre foi problemática. Era a queridinha de meu pai, filha mulher,
acostumada a ter tudo o que queria. Quando era contrariada, queria virar
a mesa. E assim cresceu. Lá pelo quarto ano de exílio, tive de ir para a
Inglaterra fazer uma cirurgia de correção no fêmur (em razão de um
acidente de trânsito), e ela foi junto. Ficou interna num colégio.
Lembro que fomos visitá-la, certa vez, e Neuzinha tinha engordado muito.
A mãe ficou apavorada, quis tirá-la de lá, pois estava achando
horrível. Acho que foi um erro da mãe, ela estava engordando mas não
tanto assim. E a Neuzinha não queria sair de lá, estava se sentindo bem.
Acabaram levando de volta ao Uruguai. Colocaram a Neuzinha numa escola
britânica em Montevidéu. De lá, ela foi expulsa e nunca mais engrenou.
Em seguida parou de estudar.
E José Vicente?
Com ele foi
diferente. A briga dele com o meu pai sempre foi mais política. O Zé
Vicente sempre foi muito desastrado, não conseguia fazer as coisas
direito, parou de estudar. Chegou a ser deputado federal (eleito em
1990), mas numa época em que meu pai elegia até um poste. Não me dava
muito bem com ele, embora nunca tenha rompido. Com minha irmã, a relação
era mais fácil. As loucuras dela não eram comigo, eram mais para
atingir meu pai. No Brasil, bem ou mal, tínhamos uma vida traçada.
Depois do golpe militar, tudo mudou radicalmente. Minha mãe várias vezes
entrou em crise. Talvez meus pais não se dessem conta de que nós não
éramos eles, que a gente ia sofrer com toda essa mudança. Faltou um
pouco de psicologia.
(entrevista enviada por Mário Assis)
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