João Bosco Rabello
Estadão
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O
desmentido do ministro Gilberto Carvalho à tese do PT que atribuiu à
“elite branca” as vaias e xingamentos à presidente Dilma Rousseff no
estádio de futebol, é o retrato mais fiel da inconsistência das
construções eleitorais do partido até agora. A queda da presidente nas
pesquisas, que reforça o descontentamento permanente do PT com [...]
O desmentido do
ministro Gilberto Carvalho à tese do PT que atribuiu à “elite branca”
as vaias e xingamentos à presidente Dilma Rousseff no estádio de
futebol, é o retrato mais fiel da inconsistência das construções
eleitorais do partido até agora.
A queda da
presidente nas pesquisas, que reforça o descontentamento permanente do
PT com sua candidata, lançou o partido na busca errática de narrativas
que ajudem a reverter a trajetória descendente na aprovação de governo e
candidata.
Já se produziu
de quase tudo – da tão efêmera quanto ruim campanha do medo à do ódio, a
conspiração da mídia , agora com lista negra de jornalistas
subversivos, até a tentativa, ainda em curso de criação de conselhos
populares para confrontar o Congresso Nacional.
Todas essas
iniciativas cumprem um roteiro perigosamente autoritário, desde o
patrulhamento ideológico até a versão esquerdista de impatriotismo
utilizada pelo regime militar, nos anos em que o PT fazia oposição, para
desqualificar seus críticos.
Lá, como cá, os
militares tinham suas listas de subversivos, alguns levados
literalmente às masmorras do regime , de onde muitos não voltaram às
suas casas.
MESMO MÉTODO
Não há
diferença no método, apenas na consecução: quem discordava dos militares
era comunista e merecia ser calado; quem discorda do PT e de seu
projeto, é de direita reacionária e merece a mordaça das patrulhas.
É de se
perguntar o que fariam os autores da lista macartista tupiniquim, se
tivessem o poder das armas e a força da ditadura. Como lá, aqui também
se tenta a censura à imprensa, sobre o pretexto da regulamentação da
mídia.
É de se
perguntar, como se materializaria esse controle, senão nos moldes dos
censores em redações, como no passado sem liberdades.
A lista do
vice-presidente do PT, Alberto Cantalice, é um estímulo a uma militância
que já se mostrou, em diversas ocasiões, capaz de tudo, pelo que foi
apelidada pelo líder maior, o ex-presidente Lula, de “aloprada”.
É uma lista com
uma dezena de jornalistas de grande evidência e profissionalismo
reconhecido, mas a ameaça é a todos os que atuam com independência. Se
tivesse sido concebida e divulgada às vésperas da morte do cinegrafista
Santiago Andrade, o que poderia dizer hoje o PT e seu vice-presidente
sobre o episódio?
A oposição, a
intelectualidade e as entidades representativas de classe não se
manifestaram a respeito do episódio, que se reveste de gravidade
inédita.
Existe para o
PT, mais que jornalistas que desagradam ao partido: existem
profissionais que precisam ser expostos à sanha de sua militância e
desqualificados pelo exercício livre da crítica – não só o bem maior da
democracia, mas também a essência da profissão.
ROTEIRO AUTORITÁRIO
Nesse roteiro
autoritário, o Supremo Tribunal Federal é político, por isso seu
presidente deve ser constrangido nas ruas, o Congresso Nacional não está
à altura de seu trabalho, por isso deve ser substituído por conselhos
populares, a imprensa conspira contra o governo, por isso deve ser
censurada, e a população de um estádio que vaia a presidente é uma
“elite branca” que precisa ser eliminada.
Informa O
Globo (20/06) que apenas 25% dos jovens com 16 anos, cujo voto é
facultativo, tiraram o título de eleitor, o que não chega a ser uma
tragédia, mas revela a alienação política, em grande medida decorrente
da cooptação financeira de entidades sindicalistas e estudantis, caso da
União Nacional dos Estudantes.
De promover a
alienação da juventude, pela censura imposta à força, os militares
também foram acusados pela oposição, da qual fazia parte o PT, muito
embora ausente dos principais movimentos que resgataram a democracia,
entre os quais a eleição de Tancredo Neves e a Constituinte de 88.
Nesse diapasão,
se viáveis de materialização, os sonhos petistas o condenariam à
solidão, pois não restaria pedra sobre pedra das edificações
democráticas.
O partido reage
da pior forma ao declínio do modelo que escolheu para governar, que
exclui todos aqueles que pensam diferente de seu ideário – que, a essa
altura, não se sabe mais o que seja.

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