Por Marcelo Hailer (Revista Fórum)
A data de 24 de junho de 2014 será
lembrada pelo anúncio do senador José Sarney (PMDB-AP) de que não
concorrerá à reeleição ao Senado. Publicamente, alega que quer se
dedicar à vida privada e estar mais perto de sua esposa, Dona Marly, que
está com a saúde fragilizada. Mas, esta é a versão política; a verdade é
que o poder de Sarney enfrenta desgaste desde 2009, quando resolveu se
candidatar senador pelo estado do Amapá, mesmo que, historicamente a sua
atuação política esteja vinculada ao estado do Maranhão, território que
durante décadas transformou em quintal da sua família.
Mas tratar da figura de José Sarney não é
algo simples e nem tão linear quanto parece, visto que se trata de uma
figura camaleônica da política brasileira. Afinal, são seis décadas de
trajetória política, e achar que ele não terá mais nenhuma influência
nessa seara pode soar ingenuidade. Porém, não há nenhuma dúvida de que,
com a saída de Sarney da política legislativa, o estilo coronelista
também se esvai e um ciclo da história brasileira se encerra.
Alguns arriscam dizer que Sarney retorna
ao Maranhão para centrar forças na eleição de Edinho Lobão (PMDB), filho
do ministro de Minas e Energias, Edison Lobão, ao Palácio dos Leões.
Porém, as três últimas pesquisas de intenção de votos realizadas no
estado indicam a vitória de Flávio Dino (PCdoB) no primeiro turno com
mais de 60% dos votos.
Fora do Senado, sem o poder executivo do Maranhão, apoio político diluído e sem o poder da canetada… O que resta a José Sarney?
O homem mais odiado do Brasil
O jornalista Palmério Dória é o autor do
livro “Honoráveis Bandidos”, certamente a principal radiografia do clã
Sarney e de como ele construiu o seu poder, utilizando-se do aparelho de
Estado para usurpar terras, energia e a comunicação, fato que Dória
chama de o “tripé do Sarney”.
Por telefone, Dória comentou o anúncio da
aposentadoria de José Ribamar Ferreira Araújo Costa, vulgo José Sarney,
que iniciou a sua ascensão política em 1958, quando se elegeu deputado
federal pela UDN (União Democrática Nacional). “O Sarney é o homem mais
odiado do Brasil, ele é uma referência de ódio. Todos os brasileiros, de
maneira geral, receberam a notícia com um certo alívio. Não muda nada,
mas é sempre um prazer saber que ele pode, pelo menos, sair das nossas
vidas. Foi essa a sensação”, comenta Dória.

O
jornalista Palmério Dória, autor do livro “Honoráveis Bandidos”, que
conta a trajetória da família Sarney (Foto: Arquivo pessoal)
O autor da principal fonte de informações
sobre a família Sarney faz questão de deixar claro que ele “não saiu,
foi enxotado, e pela segunda vez”. Palmério Dória rememora a eleição à
presidência do Senado em 2009, que na leitura do jornalista, era um
prenúncio do fim da era Sarney. “Ele quase foi enxotado em 2009 naquele
movimento todo no Senado, quando se candidatou à presidência do senado. E
agora ele se viu sem alternativa. Da mesma forma que ele não tinha
alternativa quando saiu do governo. Por que ele se candidatou a senador
pelo Amapá? Ele não tinha alternativa naquela época”, esclarece Dória
sobre o poder de Sarney, que se esvaiu a partir de sua última
presidência do Senado.
O tripé Sarney
Para se compreender melhor tanto poder em
torno de uma família, mas, principalmente, em torno da figura de José
Sarney, é necessário retornar no tempo e esmiuçar o tripé Sarney – atos
políticos em relação a três áreas fundamentais para quem deseja dominar
um estado e exercer influência política em território nacional. São
elas: energia, terra e comunicação.
A energia. Quando José
Sarney presidiu o Brasil (1985-1990), loteou a Cemar – Centrais
Elétricas do Maranhão. A partir de então, a construção de qualquer coisa
– de usinas a postes – passaria pelas mãos de Sarney. Mas apenas
controlar a estatal não bastava, era necessário presidi-la, e para isso
foi nomeado Fernando Sarney como comandante da companhia. Com isso,
todos os contratos que envolviam a construção teriam que passar pelo
crivo do filho de José. E vale lembrar que o atual ministro de Minas e
Energias, Edson Lobão, é aliado de Sarney, e agora vai lançar o filho,
Edinho Lobão, para tentar o governo de Maranhão.
A questão de Fernando Sarney na
presidência da Cemar envolve ainda outras histórias. Quando presidia a
estatal, por exemplo, também era sócio de uma empresa – a Premolde
Indústria de Artefatos de Cimento-, contratada pela Centrais Elétricas
do Maranhão para a fabricação de postes. Fernando Sarney só deixou a
sociedade quando o caso se tornou público.
O controle sobre a Cemar pelo clã Sarney
perdurou até o ano 2000, quando a então governadora do estado, Roseana
Sarney (PMDB), decidiu que era hora de privatizar a estatal e vendê-la –
a compradora foi uma corporação norte-americana, que pagou por ela R$
600 milhões. Mas se engana quem pensa que a influência dos Sarney sobre o
setor elétrico cessa aí. Em seu livro, Dória resume a situação de forma
bastante clara.
“Pelo que se depreende, a mina do Sarney é
o Fernando? É o Fernando, é o setor energético, a galinha de ovos de
ouro. Silas Rondeau foi indicado para o Ministério de Minas e Energia
por quem? Sarney. Edison Lobão, o sucessor depois que Rondeau caiu pela
mixaria de R$ 100 mil reais, foi indicado por quem? Sarney. Eles mandam
no Ministério que manda na Petrobras. Estão com a parte do leão do
orçamento brasileiro”.
A terra. Em 1969, no
final de seu governo estadual, Sarney baixa a Lei de Terras, com a
justificativa de que, a partir daquele momento, todo “trabalhador rural
ia trabalhar com carteira assinada, com salário”. Mas, muito pelo
contrário. O que ela pretendia? Burlar a Constituição, que não permitia,
sem autorização do Senado, que nenhum proprietário ou empresa fosse
proprietário de mais três mil hectares. Com a lei, foram criadas as
Sociedades Anônimas (S.A), que não estipulavam um número limite de
sócios, e partir daí ,as terras do Maranhão passaram a ser entregues a
grandes grupos. O estado atravessou um grande êxodo rural: estima-se que
seja o maior exportador de gente, tendo mais de um milhão de
maranhenses deixado a sua terra natal.
Mas, a história da Lei de Terras não para
por aí. Com a aprovação do texto, José Sarney se juntou a Abreu Sodré,
governador de São Paulo durante a ditadura militar (1967-1971) – a esta
aliança se deu o nome de “filhotes da ditadura” – e, juntos, montaram
escritórios “para organizar a venda das terras maranhenses. Esses
escritórios entregaram cerca de dois milhões e quinhentos hectares. A
Varig entrou na lambança, até multinacionais, como a Volkswagen”.
Palmério Dória diz que a Lei da Terra é
um dos legados que Sarney deixará. “O legado é que hoje o Maranhão é o
maior exportador de gente do mundo. A Lei de Terra que ele criou no
apagar das luzes do governo dele, e que ele diz que não é dele, mas é.
Ele expulsou, no mínimo, um milhão de maranhenses. Hoje você encontra
maranhense no Rio de Grande do Sul, na Amazônia… No Eldorado dos Carajás
a maioria é maranhense, eles vão sendo empurrados, um dia vão acabar
caindo no pacífico… Isso é uma coisa perversa que ele criou, o Maranhão é
um estado rico. Com essa lei das terras, que beneficiou as grandes
fazendas, ele expulsou os maranhenses”, analisa o biógrafo do clã
Sarney.
As comunicações. Com a
terra e a energia nas mãos, é preciso fechar este reinado. Isso se deu,
claro, monopolizando os meios de comunicação locais e aprofundando
relações com os barões das comunicações do Brasil. O próprio José Sarney
resume a importância da comunicação na vida de um político. “Temos uma
pequena televisão, uma das menores, talvez, da Rede Globo. E por motivos
políticos. Se não fôssemos políticos, não teríamos necessidade de ter
meios de comunicação”, ensina.
Quando Sarney foi presidente da
República, tinha como Ministro das Comunicações Antonio Carlos
Magalhães. Juntos, ambos distribuíram 1.091 concessões de rádio e
televisão. Destas, “165 ‘compraram’ parlamentares; e 257 eles
distribuíram na reta final da aprovação da Constituição de 1988”, que
tornaria proibida a concessão de rádio e TV aos parlamentares. “Não é
exagero dizer que ali os coronéis plantaram a seara para colher frutos
por décadas a fio”. Hoje, Lobão e Sarney retransmitem o SBT e a Globo em
solos maranhenses.
“Tem que se considerar o seguinte: ele
[Sarney] tinha uma articulação perfeita com a imprensa, ele era
amicíssimo do Roberto Marinho, era amigo do Frias, ele sempre transitou
com muita desenvoltura na imprensa. A imprensa começou a falar verdades
sobre ele depois de 2009, mas antes ele viajava com Roberto Marinho;
quando a Globo recebia aqueles prêmios em Nova Iorque, lá estava ele.
Portanto, ele sempre teve uma ligação profunda com a imprensa e soube
trabalhar isso muito bem”, relata Palmério Dória. Segundo o jornalista, a
parceria entre Sarney e Marinho extrapolava os limites dos interesses
comunicacionais.
“O que a Globo ganhou com os Sarney no
Maranhão é uma cosia impressionante, não é só em termos de concessão,
foram negócios. No Maranhão, o método Paulo Freire foi substituído pelo
método Roberto Marinho: uma educação transmitida através de monitores.
Eles queriam acabar com a educação, o pouco que tinha eles iam dizimar
numa operação conjunta da Fundação Roberto Marinho com a Roseana Sarney.
Então, veja o grau de interesses que eles têm”, revela Dória.
A parceria da Fundação Roberto Marinho se
concretizaria com a eleição da então candidata à presidência da
República, Roseana Sarney, à época pelo PFL (Partido da Frente Liberal,
hoje DEM, Democratas). Nas eleições de 2002, ela estava empatada com o
candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva,
com 23% das intenções de votos. “As pessoas esquecem, mas a Roseana
tinha chances reais de se eleger, era o Collor de saia. A candidatura
dela subia como um rojão e estava com ela Nizan Guanaes, aquele poder
com a Globo que era umbilical”, lembra o autor de Honoráveis Bandidos.
Em março de 2002, a Polícia Federal
encontrou na Lunus Participações, empresa que Roseana Sarney mantém em
sociedade com o seu marido, Jorge Murad, R$ 1,3 milhão em notas de
cinquenta reais. A foto da montanha de dinheiro, que estampou os jornais
do Brasil inteiro, derreteu a sua candidatura. Ela se retirou da
corrida presidencial e causou o racha político entre PFL e PSDB – ou
seja, José Sarney e Fernando Henrique Cardoso.

Roseana Sarney seria a herdeira do poder do pai, mas hoje se encontra enfraquecida e sem apoio político (Foto: 24h News)
O fim de uma era?
É fato que na próxima legislatura não
teremos a presença de José Sarney no Congresso Nacional, o que por si só
é um alívio. Mas não podemos esquecer que os seus parceiros políticos
lá estarão: Renan Calheiros, Edison Lobão e Álvaro Dias. Como sentenciou
Palmério Dória, sem a caneta em mãos, estes irmãos políticos de Sarney
tendem a deixa-lo à deriva. “Eu não acredito que o ‘sarneysmo’ viva sem o
Sarney. Historicamente todos os aliados do Sarney no Maranhão o
traíram. O Edson Lobão não traiu, mas vai trair. O Lobão vai querer
construir o império dele. A Roseana vai ficar no sereno”, prevê Dória.
Só por um milagre Edinho Lobão (PMDB)
vencerá as eleições para o governo do estado do Maranhão, visto que
Flavio Dino (PCdoB) conta com mais de 60% das intenções de voto, e até
mesmo o PT, rejeitando orientação do Diretório Nacional, apoia a
candidatura do comunista. Fernando Sarney, depois da Operação
Boi-Barrica, está alijado do poder.

Flavio Dino, candidato do PCdoB ao governo do Maranhão, tem mais de 60% das intenções de voto. (Foto: Portal Câmara)
“Todo esse poder aí começa a desabar, por
que tudo depende do poder da caneta. O Sarney nomeia até porteiro de
prédio público no Maranhão e isso ele faz pessoalmente. E agora ele não
tem cargos, não tem nada. A filha tem uma saúde frágil. Quem fica? O
Jorge Murad, marido dela? Não tem poder, não tem política, não tem
brilho, não tem nada”, Analisa Dória.
Palmério Dória ainda comenta que o
restante das figuras coronelistas da política só será erradicado com a
reforma política, mas comemora a ascensão de Flávio Dino, que, segundo o
jornalista, tem a grande chance de “virar o Maranhão de ponta cabeça”,
pois, ainda de acordo com Dória, não conta apenas com o apoio do
maranhenses, “mas de todo o Brasil”. Durante toda a conversa que travou
com a reportagem da Fórum, era claro o entusiasmo do autor com a
decadência do clã Sarney, e não é pra menos, visto que ele sentiu na
pele o poder da família quando, em 2009 lançou seu livro no Sindicato
dos Bancários, na capital São Luís. “Lá no sindicato foi a grande noite
das cadeiradas, as cadeiras voavam… Isso mostra o quanto eles prezam por
um livro”, ironiza o jornalista.
O clã Sarney desaba depois de 60 anos de
mandos e desmandos, mas ainda não é possível sacramentar o fim total da
famiglia: é fato que ainda vão tentar manter seu poderio, pois permanece
sua influência sobre as comunicações, terras e outras áreas. Flavio
Dino não terá vida fácil no Palácio dos Leões. Assim como o governador
Jackson Lago (PDT), alvo de uma ação judicial que o impeachmou, Dino vai
sofrer pressões, mas, ao que tudo indica, o contexto é outro e muito
mais favorável ao sucessor dos Sarney.
O fato é que assistimos ao degringolar do império Sarney.
*Com exceção dos trechos de entrevistas,
todos os excertos colocados entre aspas foram retirados do livro
“Honoráveis Bandidos – Um Retrato do Brasil na era Sarney” (Editora
Geração), de autoria de Palmério Dória.
(Crédito da foto de capa: Agência Brasil)

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