Charge do Iotti (Zero Hora)
Roberto Nascimento
O excelente jornalista Bernardo Mello Franco, na sua coluna do Jornal O Globo do dia 25/06/20, nos lembrou do apelido “Beato Salu”, imputado na década de 80 ao ultraliberal Paulo Guedes, representante da Escola de Chicago, com tudo para os ricos e quase nada para os pobres, até que o mercado se desenvolva e melhore a distribuição de renda, como se não houvesse alternativa.
“Beato Salu” era um personagem criado pelo escritor Dias Gomes. Na novela Roque Santeiro, a triste figura, um emérito pessimista crônico, fazia previsões catastróficas, que nunca se confirmavam.
AGORA É OTIMISMO – Hoje ministro, Guedes se transmudou para um otimista inveterado. Encarnando o Posto Ipiranga, só fala na casa do trilhão:
1) “em 10 anos, vamos arrecadar R$ 1,1 trilhão com a Reforma da Previdência”,
2) ”em 4 anos iremos faturar mais de R$ 1 trilhão com a venda de imóveis da União”,
3) “em 5 anos vamos obter mais R$ 1 trilhão com a venda de todas as estatais, num processo fast track ( rapidinho e rasteiro, com o apoio do Congresso)”.
PLANO DE CAPITALIZAÇÃO – Esperto toda vida, parou de falar no seu sonho de uma noite de verão: economizar R$ 10 trilhões em cinco anos, se conseguir passar no Congresso o tão danoso Sistema de Capitalização da Previdência Social, para destruir de vez, a vida dos aposentados.
Mas as críticas da sociedade foram muito pesadas (tudo tem um limite) e o presidente mandou evitar o assunto, para estancar o estrago nas pesquisas. Talvez, no segundo mandato, se ocorrer de fato, possam conseguir implantar esse monstrengo previdenciário, que fracassou no Chile.
Guedes é um economista ultraliberal que já demonstrou que odeia pobres, funcionários públicos, empresas estatais e aposentados, mantendo uma campanha permanente pela extinção de categorias que prestam serviços públicos, pois no seu íntimo realmente acredita que o privado faz melhor e mais barato. Questão de opinião, somente, porque existem estatais nos Estados Unidos e nos demais países capitalistas.
AFAGOS AOS EMPRESÁRIOS – No tocante à laboriosa classe empresarial, seu discurso é de loas e afagos. Chega a ser constrangedor seu empenho para reduzir e até zerar a contribuição previdenciária da Folha Salarial, repassando-o esse custo para os trabalhadores e para o Estado, na esperança otimista de provocar uma explosão do crescimento do emprego.
Guedes espera criar de agora até o final do segundo mandato presidencial, 20 milhões de empregos. Espero que a bola de cristal dele, não seja embaçada e que dê certo.
À MODA DE BALZAC – Bem, de toda essa cantilena, se extrai, dos fatos narrados, que Guedes se assemelha ao personagem da obra clássica de Honoré de Balzac: “A Comédia Humana”. No capítulo intitulado, “Ilusões Perdidas”, Balzac retrata Lucien de Rubempré, um poeta provinciano, ambicioso e sarcástico. Qualquer semelhança é mera coincidência.
Duzentos anos depois de lançada a obra de Balzac, “A Comédia Humana” parece tal atual nesses dias tristes e medievais que estamos vivendo, aqui e em alhures.
O que fazer? Só nos resta rezar e mais nada.
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