O alvará que Rosemário tinha em mãos, porém, é datado de mais de sete meses atrás. Apesar de o documento ter sido expedido em 5 de dezembro de 2011, Rosemário só saiu da cadeia ontem
Foto: Almiro Lopes
Irmãos se reencontraram após saída de Rosemário da prisão
Alexandre Lyrio
O aperto de mão e o abraço forte acompanharam
algumas poucas palavras: “Me perdoe, meu irmão. Me perdoe. O que fiz não
é papel de homem”. Ao ser libertado ontem de forma surpreendente,
Rosemário Alves Maciel, 24, saiu da penitenciária direto para o bairro
da Cidade Nova. O objetivo era pedir desculpas ao irmão, Romário Alves
Maciel, 25.
Preso desde janeiro de 2011 no Presídio Salvador, na
Mata Escura, Rosemário levou um susto quando, por volta das 15h,
através de um carcereiro, ficou sabendo que havia um alvará de soltura
em seu nome. Não pensou duas vezes e pegou um ônibus até a casa da avó,
onde Romário está morando desde que foi solto, há uma semana.
Aí quem tomou o susto foi Romário e o resto da
família. “Quando vi ele na porta levei um choque”, contou Romário. A
Secretaria de Administração e Ressocialização Penitenciária (Seap)
confirmou que Rosemário estava em prisão provisória e esperava
julgamento por causa do roubo de um celular em um assalto que cometeu no
início do ano passado.
Nesta quarta (25), segundo a Seap, ele obteve o
direito de responder ao crime em liberdade. A direção do Presídio
Salvador informou que o alvará foi expedido pelo juiz José Reginaldo
Costa Rodrigues Nogueira, titular da 11ª Vara Criminal. O alvará que
Rosemário tinha em mãos, porém, é assinado pela juíza Soraya Moradillo
Pinto, da 4ª Vara Criminal, e é datado de mais de sete meses atrás.
Apesar de o documento ter sido expedido em 5 de
dezembro de 2011, Rosemário só saiu da cadeia ontem, um dia depois de o
CORREIO divulgar que Rosemário estava preso. Em 2008, Rosemário Alves
Maciel foi preso em flagrante por ter roubado um celular, R$ 5 e US$ 1,
na Cidade Baixa.
Ao ser ouvido, sem documentos, deu o nome do irmão
no lugar do seu. Fugiu e fez com que o nome de Romário constasse como
foragido. Depois de brigar com a esposa, Romário foi denunciado por
ameaça. O suficiente para que a polícia o localizasse e prendesse por 84
dias.
Rosemário tentou justificar tudo. “Tive medo de
morrer porque eu já tinha muitos antecedentes. O pessoal dizia: ‘se saia
da área porque a polícia quer te ‘queimar’”. O rapaz também denunciou
que foi torturado por policiais. “Botaram saco na minha cabeça e deram
choque. Achei que ia morrer”, repetiu.
A explicação para os roubos? “Droga. Usava pedra, pó
e maconha. Precisava de dinheiro”, afirmou Rosemário, que diz ter
começado a usar maconha aos 7 anos. “Mas não uso nada há mais de um ano e
meio”. Rosemário, que só estudou até a 1ª série e hoje sequer sabe
assinar o nome, garantiu que aprendeu a lição. “Pela primeira vez vi que
tenho família. Vou botar minha cabeça no lugar”, prometeu.
Na sexta-feira passada, já havia pedido a dois
ex-colegas para levarem um recado à sua família, informando-os de que
estava preso. “A gente achava que ele tava era morto”, disse Romário.
Nos 19 meses que foi mantido em prisão provisória, Romário garante que
não recebeu atendimento de qualquer advogado ou Defensor Público.
O CORREIO, por sua vez, teve acesso ao processo
criminal que culminou na condenação do inocente Romário. Nele, consta o
nome da delegada Acácia de Oliveira Nunes como a autoridade policial
que, em 22 de janeiro de 2008, lavrou o flagrante de Rosemário como se
fosse Romário.
Teria sido dela a falha de não solicitar a
identificação criminal (comparação de digitais) do preso. “Na época
ninguém me levou para fazer exame nenhum”, confirmou Rosemário. Agora, é
esperar pela regeneração do rapaz, da qual sua própria avó, dona Rita,
não tem tanta certeza. “Vou ser sincera com você. Só Deus para botar
juízo aí. Espero que ele tome vergonha”.( Correio da Bahia )
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