Foto: Arquivo CORREIO
Rafael Rodrigues
rafael.rodrigues@redebahia.com.br
Na canção Bahia com H, o compositor Denis Brean decreta: “Terra mais linda, não há”. Mas, e a Baía (sem H) de Todos os Santos? Também é difícil achar uma mais bela.
Isso desde o século XVI, quando os primeiros portugueses atracaram por aqui e atestaram que as águas calmas e o relevo diferenciado credenciavam o local para receber a sede da colônia.
Inspiração de poetas, palco de uma guerra que culminou com a Independência da Bahia, museu a céu aberto dos tempos dos engenhos de cana, celeiro do samba de roda.
A Baía de Todos os Santos tem beleza e história para contar, predicados que poderiam torná-la o principal polo de atração turística do estado, o que não acontece. “É a nossa joia da coroa, é o que há de mais singular na Bahia, que é único, a maior baía do Atlântico Sul, praticamente inexplorada para o turismo. Temos que redescobri-la”, observa o secretário do Turismo, Domingos Leonelli.
“É a nossa joia esquecida. Qualquer país, qualquer estado que possuísse uma das maiores baías do mundo, teria cuidado e estaria aproveitando ela de maneira bem diferenciada”, reclama Pedro Galvão, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav).
O governo estadual agora tenta tirar do papel projetos para desenvolver o potencial turístico da baía. Reduzir os problemas de segurança pública nas cidades do entorno e a poluição também é preocupação para encantar os turistas.
A Secretaria do Turismo do Estado (Setur) toca três iniciativas. A mais ambiciosa tem financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pretende investir R$ 170 milhões para estimular o turismo náutico e cultural nos 18 municípios que fazem parte da baía.
Cerca de R$ 60 milhões são recursos do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), do Ministério do Turismo, além de R$ 7 milhões do governo estadual.
Segundo a superintendente de Investimentos e Polos Turísticos da Setur, Clarissa Amaral, o contrato com o BID será assinado em dezembro, com recebimento da primeira parcela em janeiro.
Facilitar a vida de quem gosta de velejar, na compreensão do estado, seria uma remada inicial para um objetivo maior: ampliar a infraestrutura hoteleira nas cidades banhadas pela baía.
“Já fazemos um trabalho paralelo de atração de investimentos, convidando empresários para ver locais para a instalação de bases de charter (pistas de pouso para aviões fretados), hotéis, agências de esportes náuticos. Eles estão esperando o pontapé inicial para começar a investir”, ponderou Clarissa.
O projeto de incentivo ao turismo náutico prevê a construção de quatro bases de apoio ao visitante, com banheiros, posto de informação, lan house, bar, restaurante e loja de artesanato. Os locais ainda não foram escolhidos, porque, uma vez liberado o recurso, será feito um estudo de demanda. O projeto aponta ainda a recuperação do patrimônio histórico e cultural das cidades da Baía, como a Escola Agrícola de São Francisco do Conde e do Museu Wanderley de Pinho, em Candeias.
Outra ideia é implantar o SAC Náutico, para agilizar a expedição de documentos ligados ao setor, o rastreamento de embarcações através de chip eletrônico e a implantação da polícia marítima.
Infraestrutura
Para criar a infraestrutura de restaurantes e pousadas, Leonelli aposta na qualificação profissional. “Temos que mudar o modelo turístico baiano. Parques hoteleiros são totalmente desvinculados da produção local. Em Praia do Forte, 85% dos mariscos consumidos são de Pernambuco e Alagoas”, criticou. Entretanto, todo o investimento, segundo o secretário, deverá ser realizado ao longo de quatro anos. “No primeiro momento, vamos priorizar coisas que vão trazer benefícios até a Copa”.
Entre as obras que estão com projeto executivo prontos e devem começar imediatamente está a reforma do Terminal Náutico da Bahia, no bairro do Comércio.
Existe também a promessa de requalificar o atracadouro de Monte Serrat, cuja obra está embargada há nove anos. O projeto prevê a criação da Via Náutica, linha de transporte por lanchas entre pontos turísticos da cidade, com paradas em locais como Porto da Barra, Solar do Unhão, Feira de São Joaquim, Ribeira, Baixa do Bonfim, Monte Serrat e São Tomé do Paripé.
Feira
Dentre as ideias que envolvem o desenvolvimento da Baía de Todos os Santos, a revitalização da Feira de São Joaquim já está em curso.
São R$ 60 milhões em investimentos, divididos por Estado e União. A primeira etapa da obra já foi entregue, com um novo cais para atracação. Na quarta-feira da semana passada, uma nova licitação foi aberta para a segunda etapa da revitalização, que compreende a parte de restaurantes, a área de artesanato religioso e os galpões de mariscos e animais vivos. “Até a Copa, tudo estará pronto”, garante Leonelli.
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Agências de turismo e hotéis reclamam de falta de estrutura
Enquanto a estrutura não melhora, turistas passam longe dos destinos da Baía de Todos os Santos. Segundo dados de 2011 da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Salvador recebe 32,5% dos turistas que vêm ao estado. Praia do Forte, Costa do Sauipe e Imbassaí somam 9,1%. Porto Seguro tem 9%, seguido de Ilhéus (4,3%), Prado (3,8%) e Morro de São Paulo (3,4%).
Nenhuma das cidades da Baía de Todos os Santos, tirando a própria capital, aparece na lista das mais visitadas. “É óbvio. Não existem hotéis nessa região. Dentro do Recôncavo, o turismo é incipiente”, pontua o empresário Cícero Sena. A exceção, salienta, é o hotel Clubmed, na Ilha de Itaparica. “Hoje, o turista que vem à Bahia, quando quer sol e mar, nem vem a Salvador. Vai diretamente ao Litoral Norte, onde temos belas praias, mas de mar aberto, com ondas fortes e risco muito maior do que na baía”, diz Pedro Galvão, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav-BA).
Ele destaca que o máximo que as agências de turismo conseguem vender na Baía de Todos os Santos são passeios de escuna. “Nosso receptivo, de maneira justa, não tendo estrutura, não recomenda, não encaminha”, disse, apontando como exemplos de potenciais turísticos da região as cidades históricas, como Cachoeira, e a prática do mergulho para conhecer embarcações naufragadas, além de fazendas de cana-de-açúcar.
O empresário José Manoel Garrido, presidente da Associação Baiana da Indústria de Hotéis (ABIH), aponta a dificuldade no acesso às praias como impeditivo para a instalação de novos hotéis. “Não tem estrutura, não tem como se locomover, vias são escassas. Precisamos de rodovias que cortem toda a costa”, cobrou. O secretário do turismo, Domingos Leonelli, acredita que o investimento em novos cais e atracadouros pode amenizar o problema. “O turismo náutico depende de ter onde sair e onde chegar. Então criamos opções”, destaca.
No Subúrbio, falta de saneamento compromete qualidade da água
Abraçada por porções de terra, em geral o desenho da baía não favorece a renovação das águas através das correntes marítimas. Por isso, aumenta a preocupação quando o assunto é a preservação da qualidade da água.
Na Baía de Todos os Santos, a existência do Polo Industrial de Aratu na beira do mar preocupa quem sabe do histórico de poluição. Mas, segundo o coordenador de monitoramento ambiental e de recursos hídricos do Inema, Eduardo Topázio, os problemas de poluição com metais pesados por despejo das indústrias ficaram no passado. “Os problemas de contaminação ficam nesses sítios do entorno dessas indústrias. O mercúrio que foi despejado antigamente está sedimentado no fundo do mar. Estudos não encontraram contaminação”, disse.
Já a falta de esgotamento sanitário é um problema real e deixa algumas praias da baía sem condições para banho — a maioria delas no Subúrbio Ferroviário. Eduardo Topázio salienta, todavia, que a nossa baía tem maior capacidade de renovação da água que outras. “A baía da Guanabara (no Rio), em função de sua forma geográfica, tem mais dificuldade de renovação de água e população muito maior no entorno. Lá, a poluição é problema sério”, comparou.( Ibahia )
rafael.rodrigues@redebahia.com.br
Na canção Bahia com H, o compositor Denis Brean decreta: “Terra mais linda, não há”. Mas, e a Baía (sem H) de Todos os Santos? Também é difícil achar uma mais bela.
Isso desde o século XVI, quando os primeiros portugueses atracaram por aqui e atestaram que as águas calmas e o relevo diferenciado credenciavam o local para receber a sede da colônia.
Inspiração de poetas, palco de uma guerra que culminou com a Independência da Bahia, museu a céu aberto dos tempos dos engenhos de cana, celeiro do samba de roda.
A Baía de Todos os Santos tem beleza e história para contar, predicados que poderiam torná-la o principal polo de atração turística do estado, o que não acontece. “É a nossa joia da coroa, é o que há de mais singular na Bahia, que é único, a maior baía do Atlântico Sul, praticamente inexplorada para o turismo. Temos que redescobri-la”, observa o secretário do Turismo, Domingos Leonelli.
“É a nossa joia esquecida. Qualquer país, qualquer estado que possuísse uma das maiores baías do mundo, teria cuidado e estaria aproveitando ela de maneira bem diferenciada”, reclama Pedro Galvão, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav).
O governo estadual agora tenta tirar do papel projetos para desenvolver o potencial turístico da baía. Reduzir os problemas de segurança pública nas cidades do entorno e a poluição também é preocupação para encantar os turistas.
A Secretaria do Turismo do Estado (Setur) toca três iniciativas. A mais ambiciosa tem financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pretende investir R$ 170 milhões para estimular o turismo náutico e cultural nos 18 municípios que fazem parte da baía.
Cerca de R$ 60 milhões são recursos do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), do Ministério do Turismo, além de R$ 7 milhões do governo estadual.
Segundo a superintendente de Investimentos e Polos Turísticos da Setur, Clarissa Amaral, o contrato com o BID será assinado em dezembro, com recebimento da primeira parcela em janeiro.
Facilitar a vida de quem gosta de velejar, na compreensão do estado, seria uma remada inicial para um objetivo maior: ampliar a infraestrutura hoteleira nas cidades banhadas pela baía.
“Já fazemos um trabalho paralelo de atração de investimentos, convidando empresários para ver locais para a instalação de bases de charter (pistas de pouso para aviões fretados), hotéis, agências de esportes náuticos. Eles estão esperando o pontapé inicial para começar a investir”, ponderou Clarissa.
O projeto de incentivo ao turismo náutico prevê a construção de quatro bases de apoio ao visitante, com banheiros, posto de informação, lan house, bar, restaurante e loja de artesanato. Os locais ainda não foram escolhidos, porque, uma vez liberado o recurso, será feito um estudo de demanda. O projeto aponta ainda a recuperação do patrimônio histórico e cultural das cidades da Baía, como a Escola Agrícola de São Francisco do Conde e do Museu Wanderley de Pinho, em Candeias.
Outra ideia é implantar o SAC Náutico, para agilizar a expedição de documentos ligados ao setor, o rastreamento de embarcações através de chip eletrônico e a implantação da polícia marítima.
Infraestrutura
Para criar a infraestrutura de restaurantes e pousadas, Leonelli aposta na qualificação profissional. “Temos que mudar o modelo turístico baiano. Parques hoteleiros são totalmente desvinculados da produção local. Em Praia do Forte, 85% dos mariscos consumidos são de Pernambuco e Alagoas”, criticou. Entretanto, todo o investimento, segundo o secretário, deverá ser realizado ao longo de quatro anos. “No primeiro momento, vamos priorizar coisas que vão trazer benefícios até a Copa”.
Entre as obras que estão com projeto executivo prontos e devem começar imediatamente está a reforma do Terminal Náutico da Bahia, no bairro do Comércio.
Existe também a promessa de requalificar o atracadouro de Monte Serrat, cuja obra está embargada há nove anos. O projeto prevê a criação da Via Náutica, linha de transporte por lanchas entre pontos turísticos da cidade, com paradas em locais como Porto da Barra, Solar do Unhão, Feira de São Joaquim, Ribeira, Baixa do Bonfim, Monte Serrat e São Tomé do Paripé.
Feira
Dentre as ideias que envolvem o desenvolvimento da Baía de Todos os Santos, a revitalização da Feira de São Joaquim já está em curso.
São R$ 60 milhões em investimentos, divididos por Estado e União. A primeira etapa da obra já foi entregue, com um novo cais para atracação. Na quarta-feira da semana passada, uma nova licitação foi aberta para a segunda etapa da revitalização, que compreende a parte de restaurantes, a área de artesanato religioso e os galpões de mariscos e animais vivos. “Até a Copa, tudo estará pronto”, garante Leonelli.
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Agências de turismo e hotéis reclamam de falta de estrutura
Enquanto a estrutura não melhora, turistas passam longe dos destinos da Baía de Todos os Santos. Segundo dados de 2011 da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Salvador recebe 32,5% dos turistas que vêm ao estado. Praia do Forte, Costa do Sauipe e Imbassaí somam 9,1%. Porto Seguro tem 9%, seguido de Ilhéus (4,3%), Prado (3,8%) e Morro de São Paulo (3,4%).
Nenhuma das cidades da Baía de Todos os Santos, tirando a própria capital, aparece na lista das mais visitadas. “É óbvio. Não existem hotéis nessa região. Dentro do Recôncavo, o turismo é incipiente”, pontua o empresário Cícero Sena. A exceção, salienta, é o hotel Clubmed, na Ilha de Itaparica. “Hoje, o turista que vem à Bahia, quando quer sol e mar, nem vem a Salvador. Vai diretamente ao Litoral Norte, onde temos belas praias, mas de mar aberto, com ondas fortes e risco muito maior do que na baía”, diz Pedro Galvão, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav-BA).
Ele destaca que o máximo que as agências de turismo conseguem vender na Baía de Todos os Santos são passeios de escuna. “Nosso receptivo, de maneira justa, não tendo estrutura, não recomenda, não encaminha”, disse, apontando como exemplos de potenciais turísticos da região as cidades históricas, como Cachoeira, e a prática do mergulho para conhecer embarcações naufragadas, além de fazendas de cana-de-açúcar.
O empresário José Manoel Garrido, presidente da Associação Baiana da Indústria de Hotéis (ABIH), aponta a dificuldade no acesso às praias como impeditivo para a instalação de novos hotéis. “Não tem estrutura, não tem como se locomover, vias são escassas. Precisamos de rodovias que cortem toda a costa”, cobrou. O secretário do turismo, Domingos Leonelli, acredita que o investimento em novos cais e atracadouros pode amenizar o problema. “O turismo náutico depende de ter onde sair e onde chegar. Então criamos opções”, destaca.
No Subúrbio, falta de saneamento compromete qualidade da água
Abraçada por porções de terra, em geral o desenho da baía não favorece a renovação das águas através das correntes marítimas. Por isso, aumenta a preocupação quando o assunto é a preservação da qualidade da água.
Na Baía de Todos os Santos, a existência do Polo Industrial de Aratu na beira do mar preocupa quem sabe do histórico de poluição. Mas, segundo o coordenador de monitoramento ambiental e de recursos hídricos do Inema, Eduardo Topázio, os problemas de poluição com metais pesados por despejo das indústrias ficaram no passado. “Os problemas de contaminação ficam nesses sítios do entorno dessas indústrias. O mercúrio que foi despejado antigamente está sedimentado no fundo do mar. Estudos não encontraram contaminação”, disse.
Já a falta de esgotamento sanitário é um problema real e deixa algumas praias da baía sem condições para banho — a maioria delas no Subúrbio Ferroviário. Eduardo Topázio salienta, todavia, que a nossa baía tem maior capacidade de renovação da água que outras. “A baía da Guanabara (no Rio), em função de sua forma geográfica, tem mais dificuldade de renovação de água e população muito maior no entorno. Lá, a poluição é problema sério”, comparou.( Ibahia )
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