quarta-feira, 16 de abril de 2014

Como se destrói a credibilidade


Vicente Nunes
Correio Braziliense 
É inacreditável a capacidade do governo de arrumar problemas. Não bastassem os números assustadores da economia — a inflação de março, de 0,92%, foi a maior em 11 anos para o mês, o crescimento médio do país na era Dilma, de 2%, é o pior em duas décadas, o rombo das contas externas, de mais de US$ 80 bilhões, não tem precedentes e deixa o país mais vulnerável a choques externos —, agora se descobre que, por desejo de uma senadora petista, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi obrigado a suspender uma das pesquisas mais importantes para o país, a Pnad Contínua. 
Com 80 anos de história e casos emblemáticos de resistência a interferências do Palácio do Planalto, o IBGE corre o risco de ver a sua credibilidade ir pelo ralo. A senadora Gleisi Hoffmann, ex-ministra da Casa Civil e candidata declarada ao governo do Paraná, cismou com a margem de erro da pesquisa, que, no entender dela, prejudica a distribuição de recursos por meio do Fundo de Participação dos Estados. A pressão sobre o comando do IBGE foi tanta que a diretoria decidiu suspender a Pnad Contínua sem fazer qualquer consulta ao corpo técnico. A rebelião foi geral, com pedido de demissão da diretora de Pesquisas, Marcia Quintslr. 
IBGE E IPEA
O IBGE é responsável pelos números mais importantes da economia. Da inflação ao Produto Interno Bruto (PIB), os cálculos do instituto balizam decisões de políticas econômicas e sociais e movem os negócios do setor privado. Pôr em risco a seriedade dos indicadores é sentenciar de morte a credibilidade do país, seguindo o caminho da Argentina, onde nenhum índice econômico divulgado pelo governo é confiável. 
Não se pode dar ao IBGE o mesmo destino do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) que caiu em desgraça ao politizar levantamentos para favorecer o governo petista e a divulgar informações sem a devida checagem. Foi o que ocorreu com a pesquisa sobre violência, mostrando que 65% dos entrevistados diziam que as mulheres mereciam ser estupradas, fato que causou comoção no país. Descobriu-se, depois, que gráficos tinham sido trocados e o número, na verdade, era 26%. 
Quem acompanha o dia a dia do IPEA sabe que a situação é caótica. Não há comando no órgão, totalmente aparelhado pelo governo. Para um instituto que já foi referência no debate econômico do país, o que restou foi se tornar sinônimo de piada. Não se pode permitir que o mesmo ocorra com o IBGE. O país terá muito a perder 
 
 

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