Artigo do jornalista Othelino Filho
O clamor solidário da população contra o
conjunto de desmandos praticados no Maranhão, ao longo de décadas, pelos
grupos dominantes, foi manifestado de modo relativamente tímido,
durante longo tempo (com hiatos de resistências históricas, porém, sem
consequências definitivas).

Ricardo Murad expressa bem essa figura abominável que pouco se importa com o interesse público ou bem comum.
Tomou vulto e passou a ecoar
progressivamente, à medida em que as posturas se intensificavam,
tornando-se cada vez mais sofisticadas e céleres, então sob a garantia
de absoluta impunidade.
Logo o sentimento coletivo evoluiu para
uma indignação consciente, com denúncias fundamentadas através de
movimentos e redes sociais. Na agenda dos insubmissos, o inconformismo
com a falta de ética na política, caracterizada, entre outras práticas
lesivas, pelo mau uso do dinheiro público e enriquecimento ilícito,
envolvendo parte significativa dos que são escolhidos para representar a
sociedade, bem como em relação às pessoas nomeadas para ocupar
cargos-chaves nos poderes constituídos.
A palavra de ordem passou a ser
alternância de poder. Essa exigência por mudanças pontificou tão
vigorosamente que assumiu o caráter de fenômeno social. Envolve as
pessoas de bem, que acalentam o sonho de estudar, se qualificar,
trabalhar e viver com dignidade, compostas por mulheres e homens;
crianças, jovens e idosos de todas as etnias, credos e posições
socioeconômicas.
Chegou-se à conclusão óbvia de que, muito
mais do que antidemocrático e injusto, é puro exercício de uma
dominação tirânica o fato de apenas um clã e seus seguidores mais
próximos se locupletarem das riquezas do Estado. Realidade agravada com a
exploração e opressão de trabalhadores humildes, da cidade e do campo.
Gente de boa-fé, indefesa, que paga com sacrifício, suor, sangue e
lágrimas a circunstância de ter nascido e viver sob o jugo de uma
oligarquia egoísta, cruel, sequiosa de poder e fortuna. Chega de
tragédia humana, de horror!
Demonstrando caráter dúbio e repugnante,
alguns políticos tornaram-se renegados. Mudam de posição ao sabor das
próprias conveniências. Pouco ou nada importam o interesse público e o
bem comum. O deputado e secretário de Estado da Saúde, Ricardo Murad,
expressa bem essa figura abominável.
Bastou que o grupo político de onde veio,
rompeu furiosamente e para onde voltou rastejando (não se sabe até
quando fica), caísse em queda livre, ele agride adversários para prestar
serviços. O ex-governador José Reinaldo (candidato a deputado federal) e
o deputado estadual Othelino Neto (candidato à reeleição), ambos com
vibrante receptividade no eleitorado maranhense, têm sido alvo dos seus
impropérios.
Embora pretendamos continuar debatendo
ideias, apontando soluções para vencer o estado de penúria a que os
maranhenses foram relegados pela oligarquia sarneyzista que hoje
defende, vamos relembrar o nível de coerência do “trator”,
reconhecendo-o indiferente às leis, antiético e politicamente volúvel e
desastrado.
Ricardo Murad é irmão de Jorginho, marido
e sócio de Roseana Sarney. É cunhado de Fernando Sarney. Ingressou na
carreira política sob extrema empolgação com a performance do “maior
estadista de todos os tempos”, José Sarney. Foi eleito deputado estadual
e federal.
Preterido na aspiração de ser candidato a
governador do Estado em 1994 (quando foi escolhida Roseana, a filha
predileta de Sarney), rompeu com o grupo de origem e, dando uma guinada
de 180 graus, tornou-se ferrenho opositor, acusando o seu ex-guru de
chefiar a mais nefasta oligarquia brasileira. Por conta do parentesco
próximo com a então governadora, foi impedido de se candidatar em duas
eleições. Em 2002, foi candidato sub judice ao governo pelo PSB. Lançou a
campanha em meados de fevereiro, anunciando as principais
características de “um governo de oportunidades para todos”.
Na ocasião, realçou “uma proposta voltada
para o enfrentamento dos graves problemas sociais, mas denunciando a
corrupção e o atraso da oligarquia Sarney, no Maranhão”. Em breve
pronunciamento, Ricardo Murad afirmou: “O Governo Roseana privilegia os
interesses particulares”, acrescentando que “o Maranhão, um Estado
potencialmente rico, tem atualmente o povo mais necessitado do Brasil.
As fortunas existentes, com raras exceções, são de pessoas que ou
passaram por cargos políticos, ou pertencem aos esquemas formados pelo
grupo dirigente…”
Insistiu, enfaticamente: “O Maranhão não
tem governo, os serviços públicos não funcionam”, denunciando que “o
nível de produção atual do Maranhão é menor que o de 20 anos atrás e,
nesse sentido, queremos assegurar a estrutura pública para garantir a
produção e a comercialização dos produtos básicos, redirecionar o
governo para o foco do anônimo, massificar o ensino e garantir a
formação de mão de obra qualificada”. (JP, 16.2.2002). Com receio de ter
a candidatura cassada e ser condenado a todos os ônus processuais,
renunciou.
Durante quase dois anos, comandou a
Gerência Metropolitana na Administração José Reinaldo (a quem
reiteradamente exaltava como o melhor governador e extraordinário líder
do movimento libertário do Estado). Em consequência de denúncias de
gestão temerária, com inúmeras irregularidades, entre as quais
autorização para execução de obras sem licitação, favorecimento e uso
político do cargo (comprovados), foi demitido. Rompeu com José Reinaldo
e, incontinenti, reintegrando-se ao seio oligárquico, foi nomeado
coordenador da campanha caluniosa, injuriosa e difamatória tanto contra o
governo do ex-amigo, correligionário e chefe, quanto em relação ao
cidadão Zé Reinaldo e à família. (Prática criminosa repetida, agora,
contra Flávio Dino, favorito disparado em todas as pesquisas. O prefeito
Edivaldo Holanda é outra vítima).
Em 2004, candidatou-se a prefeito de São
Luís, apoiado pelo clã Sarney, ao qual pertence por afinidade familiar.
Patinou nos sete por cento dos votos, assumindo a lanterna entre os
candidatos em condições de vencer as eleições. Depois de passar pelo
PFL, PSD, PDT e PSB, hoje é filiado ao PMDB. Onde andam autoridade moral
e coerência do trânsfuga? Certamente nos porões da obscuridade
oligárquica enraizada…
(**) Este artigo é dedicado ao estadista
Eduardo Campos, que honra para sempre a política e a Nação brasileiras,
fiel ao perfil familiar, incluindo o seu avô Miguel Arraes.
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