Abusos nas promoções da Polícia Militar do Maranhão
Nos últimos anos, observamos boquiabertos
a desenfreada queda da ética dentro da Polícia Militar do Maranhão e a
consolidação de uma “nova ética” no seio da corporação, especialmente
junto ao oficialato, o que possibilitou que oficiais mais modernos
fossem promovidos na frente de um grande número de oficiais muito mais
antigos.
Com
a proximidade das promoções de Oficiais na Polícia Militar do Estado do
Maranhão, previstas para o dia 21 de Agosto, e diante do atual sistema
de promoções, onde se tornou imoral, é de se esperar mais um desrespeito
por parte do Governo do Estado do Maranhão para com a oficialidade
desta briosa Corporação. Cumpre observar que em razão de sucessivas
promoções o que se verifica é o Governo do Estado promovendo Oficiais
por merecimento observando critérios meramente políticos. A Polícia
Militar em período previamente estipulado em lei, tem que publicar em
Boletim Geral a relação dos Oficiais que concorrerão à promoção por
merecimento, mas pasmem, nunca, mas nunca o Governo do Estado do
Maranhão seguiu essa relação devidamente elaborada por uma comissão de
Oficiais superiores, onde mediante critérios objetivos e subjetivos
elabora a pontuação dos Oficiais, nem sequer justificou o porque agiu
dessa forma, demonstrando um total desrespeito ao principio da motivação
dos atos administrativos..
O Governo do Estado do Maranhão usa esse
artifício baseado numa legislação de promoção de Oficiais ultrapassada,
onde usando o seu poder discricionário não segue a relação dos Oficiais
para promoção por merecimento elaborado pela Polícia Militar, escolhendo
sempre nomes que satisfaçam os seus interesses. Neste aspecto reside o
perigo, pois com essa abertura legal, promove-se Oficiais tido como mais
recrutas em detrimento dos mais antigos pelo simples fato de ter um
apadrinhamento político. Há casos em que um Oficial passou na frente de
mais de 70 Oficiais mais antigos. Nunca sequer houve motivação desse ato
administrativo. Como pode o Ministério Público, o Judiciário não exigir
a motivação de um ato administrativo que está sendo elaborado em
prejuízo de outros agentes?
A promoção pelo de critério de
merecimento, de cunho subjetivo, é baseada no conjunto de qualidades e
atributos pessoais do militar que revelam, em tese, que ele é o mais
apto para exercer as funções do posto ou graduação para o qual está
concorrendo. Aqui, de forma subjetiva, a promoção se dá através de
indicação, como comumente se chama, o famoso “QI” (Que Indica).
Infelizmente, a promoção por merecimento
sofreu inúmeras distorções, e longe de basear-se no conjunto de
qualidades e atributos pessoais do militar, norteia-se quase que
exclusivamente em critérios políticos, e hoje não passa de um artifício
imoral utilizado para permitir que alguns possam “furar” a fila e
ascenderem rapidamente na Corporação.
A respeito dos critérios comumente
utilizados para se escolher os que serão promovidos por merecimento é
imprescindível a lição de FRANK D. McCANN, que embora se refira ao
Exército Brasileiro nos idos de 1880, mostra em sua narrativa um fiel
retrato daquilo que se pratica hoje, em pleno século XXI: “Idealmente,
as promoções estavam associadas ao mérito, mas muitas das vezes a
influência política e o apadrinhamento de oficiais superiores
determinavam quem era os favorecidos”. Historicamente nas Polícias
Militares 90% das promoções por merecimento destinam-se justamente aos
que não trabalham na atividade-fim da Corporação, mas em outras
atividades privilegiadas (Gabinete Militar da Governadora, Gabinete do
Secretário de Segurança, Comando-Geral, Gabinetes Políticos etc). Dessa
triste realidade tiramos a constatação bastante conhecida por qualquer
policial militar do Brasil: quanto mais longe da atividade-fim, mais
rápida será a promoção.
Constata-se isso nas últimas promoções
ocorridas na Polícia Militar do Maranhão, apenas tomando-se como exemplo
os intervalos de abril/2012 a abril/2014.
1) Gabinete Militar da Governadora: 01
Capitão à Major (Abril/2012); 01 Capitão à Major (Abril/2013); 02
Capitães à Major (Abril/2014).
2) Gabinete do Comandante Geral: 01 Capitão à Major (Abril/2012); 01 Tenente Coronel à Coronel (Abril/2014);
3) Gabinete do Comandante do CPE: 01 Capitão à Major (Abril/2014);
4) Gabinete do Presidente do Tribunal de Justiça: 01 Tenente Coronel à Coronel (Abril/2012).
5) Gabinete do Secretário de Segurança: 01 Tenente Coronel à Coronel (Abril/2012); 01 Capitão à Major (Abril/2012); 02 Capitães à Major (Abril/2014).
6) Gabinete do Subcomandante da PM: 01 Capitão à Major (Abril/2012).
7) Gabinete do Vice-Governador: 01 Capitão à Major (Abril/2012).
8) Gabinete do Chefe da PM/4: 01 Capitão à Major (Abril/2012).
2) Gabinete do Comandante Geral: 01 Capitão à Major (Abril/2012); 01 Tenente Coronel à Coronel (Abril/2014);
3) Gabinete do Comandante do CPE: 01 Capitão à Major (Abril/2014);
4) Gabinete do Presidente do Tribunal de Justiça: 01 Tenente Coronel à Coronel (Abril/2012).
5) Gabinete do Secretário de Segurança: 01 Tenente Coronel à Coronel (Abril/2012); 01 Capitão à Major (Abril/2012); 02 Capitães à Major (Abril/2014).
6) Gabinete do Subcomandante da PM: 01 Capitão à Major (Abril/2012).
7) Gabinete do Vice-Governador: 01 Capitão à Major (Abril/2012).
8) Gabinete do Chefe da PM/4: 01 Capitão à Major (Abril/2012).
Soma-se a essa relação 02 Tenentes
Coronéis que foram promovidos a Coronéis em Abril/2012 que passaram um
bom período à disposição do Gabinete Militar da Governadora e Gabinete
do Presidente da Assembléia Legislativa, pois mesmo não estando mais
trabalhando nesses locais, as suas promoções sofreram forte influência
dos seus antigos padrinhos.
Existem casos emblemáticos na Polícia
Militar do Maranhão de verdadeiros capotes (jargão militar usado quando
um policial passa na frente do outro), cita-se o exemplo de um Oficial
promovido em Abril/2012 que trabalhava no Gabinete do Comandante Geral
onde por antiguidade estava na posição nº 78 e por merecimento nº 52,
mas foi promovido a Major, usurpando o direito de vários Oficiais mais
antigos e não sendo demonstrado nenhum critério que pudesse justificar
tal promoção. Cabe ainda trazer à baila o fato de um outro capitão à
disposição do Gabinete Militar da Governadora que ocupava a 68º posição
na relação por antiguidade e 39º por merecimento, mas teve o beneplácito
de ser agraciado pela promoção ao posto de Major, sem falar que fora
promovido em Dez/2013 com data retroativa a Abril/2013. Outro caso que
também salta aos olhos ocorreu em Abril/2014, onde mais um capitão que
trabalha junto ao Governo do Estado que ocupava a posição 77 na escala
de antiguidade e 41º por merecimento foi agraciado com a promoção à
Major através de mais um ato espúrio do Poder Executivo, preterindo
inclusive oficiais mais antigos que estão com mais de 11 anos no posto
de capitão.
O atual sistema tem produzido maléficos
efeitos para a Instituição, seus integrantes e a sociedade, dentre os
quais podemos destacar: a reprodução dessa infame prática por partes
daqueles que chegam a posições que lhe permitam beneficiar-se do poder,
gerando um nefasto ciclo vicioso. O desenvolvimento de um forte
sentimento de revanchismo, ressentimento e desunião entre os oficiais. O
esfacelamento da hierarquia e da disciplina em virtude da ascensão
meteórica de alguns em detrimento de outros muito mais antigos. A
formação de grupos de oficiais e praças que em vez de se dedicarem à
segurança pública e à profissionalização da Polícia Militar, devotam-se
exclusivamente para servir aos grupos políticos que estão no poder com o
objetivo de tirar proveito dessa ligação. E por fim, tem-se a total
desmotivação do restante da tropa, à qual cabe apenas suportar a
pesadíssima carga da segurança pública, desaguando nesta e na população o
resultado de todas as injustiças produzidas por esse sistema.
Além dos danosos efeitos institucionais
acima descritos, temos ainda outros igualmente perversos que se refletem
nas esferas pessoal, familiar e social. Assim, no âmbito pessoal temos
um indivíduo frustrado, pois o atual sistema lhe tolhe todas as
perspectivas de realização e crescimento profissional, causando-lhe
enorme angústia e incerteza que somadas à impotência diante de tantas
injustiças lhe afligem inúmeros males no corpo e na alma, especialmente
em época de promoções. Por conseqüência, toda essa gama de aflições
transpassa o indivíduo, atingindo também à sua família, gerando
desajuste e sofrimento no seio familiar. Finalmente, na esfera social,
temos um cidadão descrente na sociedade e em suas instituições, além do
dilacerante dilema moral de se questionar a cada dia se, no mundo de
hoje, vale a pena ser honesto.
Ainda do ponto de vista social, o atual
sistema fomenta a formação de uma polícia voltada exclusivamente para
servir aos interesses dos governantes e não à sociedade. Algo que, ao
menos teoricamente, é inaceitável num Estado Democrático de Direito.
O atual sistema permite que uma minoria
usurpe dos demais o sagrado direito de ascensão na carreira, pois
arrancaram deles a garantia de um fluxo de carreira regular e
equilibrado.
No futuro, as novas gerações ao
escreverem sobre a história da Polícia Militar do Maranhão e narrarem
essa página infeliz de nossa história sentirão vergonha das imoralidades
cometidas e da passividade desta geração.
Esperamos, com este artigo, alertar os
oficiais e as praças sobre o grave risco que correm o nosso futuro e da
Instituição em virtude de nossa vergonhosa passividade. Igualmente
buscamos dá conhecimento às autoridades e à sociedade sobre a
insustentável situação em que se encontra a Polícia Militar do Maranhão,
e assim, tentarmos juntos fazer frente a esse sistema que vem, ao longo
dos anos, contribuindo significativamente para o esfacelamento moral da
Corporação. E por fim, possibilitar aos partidários da “nova ética” uma
profunda reflexão sobre o grande mal que estão causando à Instituição,
aos demais companheiros de farda e, principalmente, à sociedade
Maranhense, à qual juraram servir e proteger.
Assim, para mudarmos esse triste quadro é
preciso urgentemente criar uma nova e moderna Lei de Promoção de
Oficiais e Praças que garanta a todos um efetivo fluxo regular de
carreira e a profissionalização da Polícia Militar, em que o constante
aprimoramento e a qualificação do militar de polícia sejam os principais
mecanismos de ascensão e crescimento na carreira. Dessa forma,
ganhariam a Instituição, seus integrantes e, principalmente, a
sociedade.
Preferimos não nos identificar para
evitar algum tipo de represália, mas esse é o quadro que os Oficiais da
Polícia Militar do Maranhão vivem e sabemos do valoroso serviço prestado
por seu Blog, esperamos que tal artigo seja publicado.
Oficiais da Polícia Militar do Maranhão
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