Putin aproxima Otan e pode criar guerra civil na Ucrânia
Pedro do Coutto
A votação da Assembleia Geral da ONU por 141 votos a 5, condenou a brutal invasão da Ucrânia e manifestou o repúdio internacional de grande amplitude à Rússia de Putin. A diferença de votos que inclui o do Brasil, reflete bem a repugnância causada no mundo inteiro pela violenta invasão de um país estrangeiro por outros, violando os fundamentos do direito internacional e, sobretudo, os direitos da pessoa humana e da autodeterminação dos povos.
O voto brasileiro dado pelo embaixador Ronaldo Costa tem grande importância para a política interna de nosso país na medida em que ele não reflete a posição do presidente Jair Bolsonaro, que não se manifesta contra a invasão, preferindo uma posição de neutralidade.
OMISSÃO – O embaixador, numa entrevista à GloboNews, na noite de quarta-feira, tentou camuflar o caráter substantivo do voto brasileiro. Mas não adiantou nada. O caráter substantivo está contido pelo acompanhamento da posição assumida por 140 outras nações. O voto de Ronaldo Costa Filho livrou o Brasil de ingressar na história por um episódio de omissão quanto ao absurdo da guerra e da invasão de um país por outro.
A posição brasileira também foi bem comentada no programa Em Pauta pela jornalista Eliane Cantanhêde que destacou a participação decisiva do almirante Flávio Rocha no posicionamento legítimo por parte do Itamaraty.
Se, como os sintomas indicam, mais uma reunião entre Moscou e Kiev na fronteira da Bielorrússia não levar a suspensão das operações russas, só restará o caminho de uma ação armada por parte da Otan, essa deixada clara pelo pronunciamento da Alemanha, da França, do Império Britânico e também da União Europeia.
SANÇÕES – Os Estados Unidos estão aplicando sanções fortíssimas no plano econômico e financeiro contra a Rússia. Mas no caso de ação armada não poderão se omitir em face da pressão internacional e moral que impulsiona a revolta dos países que defendem a liberdade e os direitos básicos da pessoa humana.
No O Globo, a reportagem sobre a decisão da ONU foi de Camila Zarur e Eliane Oliveira. Na Folha de S. Paulo, de Igor Gielow, que se encontra em Moscou. Como focalizei nas edições anteriores, o transporte de armamentos dos países da Otan para a Ucrânia constitui um problema extremamente sensível, especialmente para os russos na sua ofensiva e para o futuro da Ucrânia e da liberdade.
FERTILIZANTES – Enquanto o banco central russo injetava no mercado US$ 26 bilhões para evitar o desabamento total do rublo, que já apresenta uma defasagem de 40% em relação à moeda americana, no Brasil uma das preocupações do governo volta-se para o abastecimento de fertilizantes indispensáveis para assegurar o êxito da próxima safra agrícola.
A ministra da Agricultura, Tereza Cristina , matéria de Ricardo Della Coletta e Juliz Witzak, na Folha de S. Paulo, prevê um novo aumento do preço dos alimentos. Mas considera que uma das saídas para substituir os fertilizantes produzidos pela Ucrânia e pela Rússia seria buscar a importação do Canadá.
Essa alternativa é também levantada por empresários do agronegócio. Mas o presidente Jair Bolsonaro referindo-se ao fertilizante potássio sugeriu o fornecimento pelos trabalhos de mineração em terras indígenas que podem incluir o produto. Absurdo completo. Não só porque a mineração em terras indígenas é ilegal, da mesma forma que os garimpos, mas sobretudo pelo volume da produção. No O Globo, o problema dos fertilizantes está destacado numa reportagem de Eliane Oliveira, Gabriel Shinorrara e André de Souza.
LUGAR DE HEROI – No panorama internacional que infelizmente se desenha no mundo, à sombra da brutalidade da Rússia de Putin, o presidente ucraniano Zelensky por sua resistência e disposição de morrer combatendo a invasão assegurou para si através dos tempos um lugar como heroi no esforço pela sobrevivência dos princípios basilares da própria humanidade.
Putin está sofrendo em função do heroísmo de Zelensky em derrotas sucessivas, como destacou Miriam Leitão em seu artigo no O Globo de ontem. Putin não tem saída. Na minha opinião, é claro, precisa ser detido se a realidade assim exigir pelo movimento armado da Otan, já que ele representa uma ameaça ao próprio continente europeu, substanciada nas suas próprias declarações, atacando a Finlândia e a Suécia, e as hostilizando diretamente caso venham a ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Putin é o homem da destruição, da terra arrasada, do espectro da morte e da desolação. Quanto mais tempo permanecer à frente do governo de Moscou, maior será a ameaça que ele representa ao presente e ao futuro da própria humanidade.
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