Mineração ilegal de ouro em São Félix do Xingu, no Pará
Eduardo Gonçalves
O Globo
O governo federal intensificou nesta semana uma ofensiva para aprovar o projeto que libera a exploração de minérios, permite a construção de hidrelétricas, ferrovias e rodovias e a plantação de transgênicos em terras indígenas. A medida é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro como forma de o Brasil superar a dependência de fertilizantes russos, mas pesquisadores rejeitam a justificativa.
Na visão de ambientalistas, o projeto irá institucionalizar o “vale-tudo” para crimes ambientais como a grilagem e o garimpo ilegal nas reservas indígenas, consideradas hoje as áreas mais preservadas da Amazônia. Para a bancada ruralista, aliada ao governo na questão, a medida irá regularizar as atividades de exploração hoje na ilegalidade, gerando empregos, renda e desenvolvimento às comunidades locais.
DIZ A DEPUTADA ÍNDIA — “Este sem dúvida é o pior projeto do governo para a Amazônia. Vai causar a destruição dos povos originários. Vamos fazer de tudo para barrar” — declarou Joenia Wapichana (Rede-RR), única deputada indígena do Congresso.
“É a medida mais importante que temos para a Amazônia. Vamos tirar da ilegalidade e da criminalidade essas atividades econômicas” — rebate o ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputado Alceu Moreira (MDB-RS).
O deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP) prepara, com outros parlamentares da oposição, um pacote para obstruir a tramitação do projeto. O grupo conta com a pressão de uma manifestação encabeçada por artistas como Caetano Veloso e Seu Jorge e movimentos sociais como o Greenpeace, Observatório do Clima, Associação dos Povos Indígenas, UNE e MST.
REGIME DE URGÊNCIA – O governo está empenhado em aprovar o projeto na Câmara em 30 dias. A primeira etapa seria dar o aval para análise com urgência, o que pode ocorrer hoje.
Feito sob medida para agradar mineradoras e entidades de garimpeiros que têm interesse nas jazidas da Amazônia, o projeto estava engavetado desde fevereiro de 2020, quando foi enviado ao Congresso Nacional pelos então ministros Bento Albuquerque (Minas e Energia) e Sergio Moro (Justiça). Na ocasião, o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia (União Brasil-RJ), anunciou que iria segurá-lo.
O atual presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), no entanto, já deu sinais de que é favorável à proposta e só espera a melhor oportunidade para colocá-lo em pauta.
GUERRA OPORTUNA – Na avaliação de Lira e Bolsonaro, o momento chegou com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que restringiu o suprimento de potássio para o Brasil — fundamental na composição dos fertilizantes usados em larga escala no país. Enquanto Bolsonaro passou a discursar que as maiores reservas de potássio estavam dentro de comunidades indígenas, Lira iniciou uma consulta a líderes dos partidos sobre a viabilidade de acelerar a aprovação da medida.
Para especialistas, o “dilema do potássio” é uma falácia. De acordo com pesquisadores da área, só um terço das reservas de minério estão na Amazônia Legal, nenhuma delas está em terras indígenas homologadas, 11% estão em áreas não homologadas (ou seja, ainda não plenamente reconhecidas pela União como terra indígena), e a única mina de potássio em operação hoje se localiza em Sergipe.
“As maiores reservas mapeadas ficam em Minas Gerais e São Paulo” — afirmou Raoni Rajão, professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Laboratório de Gestão de Serviços Ambientais (Lagesa).
TUDO MENTIRA — “É um pretexto falacioso. Primeiro, porque o potássio não está em terra indígena. E segundo porque o governo passa a impressão de que, aprovando o projeto, já vai resolver a demanda do mercado no dia seguinte, o que é uma inverdade. Os projetos dessas minas levam anos para serem constituídos” — complementa Rajão, que coordena desde 2019 um projeto que estuda como solucionar a demanda por fertilizantes no Brasil.
”Não é verdade que o projeto Potássio Brasil (desenvolvido na Calha do Madeira) está parado por causa da questão indígena. O problema são as zonas de amortecimento (o entorno) das reservas indígenas, e não as reservas em si” — confirma Luís Maurício Ferraiuoli, presidente da ABPM, referindo-se às áreas que também preveem uma restrição.
Ferraiuoli afirmou ser favorável à mineração em terras demarcadas, mas se posicionou contrário a misturar o debate da crise de potássio à questão indígena: “Só prejudica”, resumiu.
###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Infelizmente, o projeto do governo é mais para passar a boiada do que para explorar as riquezas minerais da Amazônia com o menor dano ao ambiente e com respeito às nações indígenas. A proposta é do tipo misturar chiclete com banana, como diziam os geniais compositores Almira Castilho e Waldeck Macedo, que tinha o apelido de “Gordurinha”, mas era magro igual ao Marco Maciel, chamado de “Mapa do Chile”. (C.N.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário